Manuela D. L. Ramos

2. 1. À Volta da Sinologia Portuguesa

2. 2. Livros portugueses sobre a China no século XIX
……. 2.2.1. A Imagem da China
……..2.2.2. Os Estudos sinológicos em Macau
……..2.2.3. As novas relações políticas e os seus intérpretes nos livros de viagens à China: de Carlos José Caldeira ao Conde de Arnoso
……..2.2.4. A China de O Mandarim de Eça de Queirós

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2. 1. À volta da sinologia portuguesa

p.37

[sinologia portuguesa, muro das lamentações - Padre Joaquim de Jesus Manuel Guerra (1908-1993),“A Lira Chinesa de Machado de Assis” (1977), Falenas (1870), Livre de Jade de Judith Gautier -Wenceslau de Morais, “o cronista do Oriente em Português”(António V. Saldanha)- O Comércio do Porto, “Cartas do Japão”: “raras excepções”- carente Sinologia: “obras raramente manuseadas dos nossos missionários (Wenceslau de Morais)”- padre lazarista Joaquim Afonso Gonçalves (1781-1841)- Pedro Nolasco da Silva (1814-1912)- intérprete, tratado luso-chinês de amizade e comércio de 1887- Jornadas pelo Mundo (1895), Conde de Arnoso- Cousas da China (1898), Joaquim Heliodoro Callado Crespo, cônsul em Cantão-“O Animismo entre os Chineses”, Guilherme de Vasconcelos-Abreu - Ta-Ssi-Yang-Kuo, archivos e anaes do Extremo-Oriente Português (1899-1900), João Feliciano Marques Pereira, o «primeiro “sinólogo moderno”ao serviço do  Governo Português” (António V. Saldanha)]

Em 1977, num artigo intitulado «A lira chinesa de Machado de Assis», depois de discorrer sobre os poetas chineses autores dos oito poemas que o referido escritor brasileiro traduzira do Le Livre de jade de Judith Gautier e incluíra no final das suas Falenas (1870), o padre Joaquim de Jesus Manuel Guerra (1908-1993), «considerado o derradeiro sinólogo português» (1), conclui:

«É de lamentar que Machado de Assis não tivesse conhecido mais copiosa fonte de Poética Chinesa, para dedilhar na sua vibrante Lira. Mas nem ele, embora grande linguista, sabia chinês; nem o que é mais lamentável, existiam em português traduções aproveitáveis das obras-mestras chinesas. É quase incrível que nem em Macau, terra aliás abençoada por Deus, surgisse, em 400 anos de amigável convívio luso-chinês, uma versão completa dos belos Clássicos da China. Mas talvez esteja para breve remediar-se tamanha falha, pois algumas dessas obras se encontram agora traduzidas do original, só à espera de um Mecenas ou agência cultural que as edite. […] eu próprio, só no declínio da vida, tomei providencial contacto com essas obras milenárias, luzeiros de fé e humanismo que, uma vez acesos, nunca mais se deverão apagar.» (2)

Quando se fala de sinologia portuguesa, faz parte de uma espécie de ritual acrescentar uma pedra ao muro das lamentações. Um dos primeiros a lançar pedras neste muro já secular foi Wenceslau de Morais, como se pode verificar no seguinte excerto de uma das suas crónicas, publicadas em O Comércio do Porto sob o título de “Cartas do Japão”:

«[7 de Dezembro de 1905] Em um dos mais interessantes magazines que se publicam agora em Portugal, apareceu há pouco um curioso artigo sobre a escrita chinesa. O artigo começa assim: –“Poucos leitores acolherão sem incredulidade a ideia de que existe espírito em qualquer coisa dos chineses, e muito especialmente na sua Língua.” – E prossegue, provando graciosamente que tal incredulidade é infundada. […] Será, pois, permitido exclamar: – que triste e indesculpável ignorância em que vivemos!… Que míngua de documentos nossos, educativos, do que seja a civilização asiática, especialmente a extremo-oriental; e que desamor para irmos ao menos consultar os documentos alheios, que não faltam!… Nós, que devassámos a China na vanguarda dos povos europeus, contentamo-nos com a obra escrita pelos nossos missionários, hoje já, deficiente perante os métodos modernos da investigação etnográfica, e ainda por cima raramente manuseada. […] E quando perguntamos a nós mesmos o que tem feito, como obra de pensamento, como documento literário e de consulta, o enxame de funcionários nossos a que temos ido dando emprego na China – médicos, magistrados, sinólogos, professores e todos os outros – apuraremos que, uma vez, um curador de defuntos e ausentes fez Os Lusíadas mas que mais ninguém fez coisa alguma (com raras excepções), a não ser… muita cera, muita cera, muita cera… Têm, pois, razão os leitores da revista a que me referi, embasbacando-se de espanto, quando alguém lhes diz que os chineses não são destituídos de espírito.»(3)

[ Tinham razão os leitores do referido magazine e também a tinha Wenceslau de Moraes, todavia é] pena que, para esclarecimento dos portugueses do Continente que declara ignorantes, não tivesse nomeado algumas dessas raras excepções: poderia ter-se referido a algumas das obras “raramente manuseadas” dos nossos missionários (4) por exemplo; ou ao ilustre continuador dessa tradição, o padre lazarista Joaquim Afonso Gonçalves (5) (1781-1841); ou a Pedro Nolasco da Silva (1814-1912) que ele provavelmente conheceu em Macau e cujas obras (6) de carácter pedagógico no âmbito dos estudos sínicos se elevavam já a mais de uma dezena, no ano da referida crónica.

Wenceslau de Morais poderia também ter recordado as cerca de quinhentas bem escritas páginas das Jornadas pelo mundo (1895), cujo autor, o Conde de Arnoso – que integrou a missão diplomática enviada a Pequim para concluir as negociações do tratado luso-chinês de amizade e comércio de 1887, de que foi intérprete justamente Nolasco da Silva –, para além de descrever pormenorizadamente os locais por onde passa, não descura os aspectos sociais, e se alonga fundamentadamente sobre as artes, literatura e filosofia chinesas, assim como sobre aspectos políticos e históricos.

E lembrar um livro publicado em 1898 que falava das Cousas da China. Costumes e crenças, escrito por Joaquim Heliodoro Callado Crespo, como ele oficial da Marinha, que fora cônsul em Cantão. Esta obra constituía uma leitura assaz recomendável, não sofrendo em comparação com o que do género se publicava então na Europa e demonstrando que o autor se dera ao trabalho de “consultar documentos alheios”.

Aliás, o seu livro é um repositório de referências, sendo as últimas páginas constituídas por um trabalho alheio, intitulado “O animismo entre os chineses” [ver infra 3.5.2 ] , da autoria do fundador dos estudos de sânscrito em Portugal, Guilherme de Vasconcelos Abreu. Na parte dedicada à “Linguagem chinesa, caracteres e imprensa”, Callado Crespo refere justamente Nolasco da Silva:

«A língua escrita, diz um sinólogo nosso, o Sr. P. Nolasco da Silva, nas suas lições progressivas para o estudo da língua sínica, é lacónica e difícil de entender; as letras são perfeitos camaleões que mudam de acepção, conforme são as outras letras com que vêm ligadas, o seu valor gramatical é regulado quase unicamente pela sua posição na oração, às vezes uma oração contém só as ideias principais, e a imaginação do leitor tem de suprir as ideias acessórias.»(7)

E, para terminar por agora esta incompleta lista, acrescentarei ainda que Wenceslau de Morais poderia ter-se referido à publicação do primeiro volume de Ta-ssi-yang-kuo. Arquivos e anais do Extremo Oriente português (8), reunindo os fascículos mensais do primeiro ano (1899-1900) da publicação da revista homónima, devida à iniciativa de João Feliciano Marques Pereira, o «primeiro “sinólogo moderno” ao serviço do Governo Português» (9), como lhe chamou António V. Saldanha.

Claro que não me compete sugerir o que deveria ter escrito Wenceslau de Morais, ele que foi «o cronista do Oriente em Português» (10) e traçou para Portugal, desde 1888 (11), imagens de uma China e de um Japão que como nenhum outro português soube descrever; ele, cuja voz sentida e plena de compaixão pelos outros, quando critica os motivos materialistas dos interesseiros e grosseiros ocidentais, nomeadamente dos portugueses (12), é por demais preciosa na sua singularidade para ser menosprezada.

Também não pretendo fazer mostra de uma erudição gratuita, nem subscrevo a opinião (como poderia?) de que os estudos sinológicos portugueses brilham actualmente com a luz forte e renovadora de um saber colectivo diligentemente construído e amorosamente acalentado. Simplesmente entendo que ignorando ou não referindo o que já havia sido elaborado, numa atitude de certo modo típica que, passado quase um século parece ter ainda ilustres continuadores (13), Wenceslau de Morais contribuiu para alimentar o ciclo impotente da “triste e indesculpável ignorância”, utilizando mais uma vez os seus próprios termos.

A atitude de um anónimo funcionário dos correios de Lisboa que, em 1904, recambiou para a origem, por «ignorar a residência do destinatário» (14), um dos exemplares da Botanica da China aplicada à economia doméstica e à therapeutica (Hong Kong, 1904), cujo autor, João M. António da Silva, enviara para o deputado de Macau, é um caricato exemplo desta ignorância.

Deve ainda acrescentar-se que o espanto pelo desprezo destas “raras excepções” é também recorrente no rol das lamentações sobre a nossa tão carente sinologia. Num artigo que se propõe ser um esboço breve sobre os sinólogos portugueses de Macau e das obras por eles produzidas, António Aresta escreve acertadamente  [em 1997] que «só mesmo um país de distraídos é que se pode dar ao luxo de os ignorar pura e simplesmente» (15).

Como já lamentava José Ignácio de Andrade (1780-1863), autor do primeiro livro português de viagens à China no século XIX:

«Não é por falta de homens doutos, que a nossa pátria se acha pobre de obras úteis, mas por não se dar protecção a seus autores (16)

2. 2. Livros portugueses sobre a China no século XIX

2. 2. 1. A imagem da China

[ Séc. XVI e XVII : Galiote Pereira, Gaspar da Cruz, Fernão Mendes Pinto - utopia sinófila - China fabulosa-  século XIX : José Ignácio de Andrade, Carlos José Caldeira, Francisco Maria Bordalo, Gregório José Ribeiro, Manuel de Castro Sampaio, Conde de Arnoso, Adolfo Loureiro, Joaquim Heliodoro Callado  Crespo- corpus orientalista português do séc. XIX -imagem da China: de sinofilia a sinofobia, René Étiemble- estilo generalizante- imagem negativa dos chineses  - imagem da inalterabilidade da civilização chinesa- Herder L. von Ranke – Hegel-  Martins - Ernest Rose- Alain Peyrefite, L'Empire Immobile ou le Choc des Mondes (1991)- The Middle Kingdom, S. Wells Williams (1848) - Arthur A. Smith, Chinese Characteristics (1890). ]

p.40

Os relatos de viagens à China que ficámos a dever aos portugueses Galiote Pereira (c. 1552), Gaspar da Cruz  (17) (1569-1570) e Fernão Mendes Pinto  (1614) introduziram novos padrões no tecido de uma utopia sinófila que radicava já bem fundo no imaginário do Ocidente e reavivaram, como é amplamente reconhecido, as sementes de uma China fabulosa (18).

As obras posteriores, incluindo as do século XIX a que me referirei, são muito menos conhecidas, não só as que desenvolvem um trabalho específico no campo da divulgação da língua chinesa como as que tratam dos aspectos civilizacionais e que têm o seu lugar, de um modo mais ou menos meritório, no problemático género de literatura de viagens e num outro, aparentado, de seu nome ‘descrição pitoresca de terras e costumes’. Estas obras (cuja lista ordenada cronologicamente se apresenta a seguir), são livros de viagens sob forma epistolar (1, 3a e 4); impressões pessoais de viagem (2 e 6); diário (7); relatos sobre usos e costumes (5 e 8); e «ficção de temática ultramarina»(19) (3b).

1. ANDRADE, José Ignácio de, Cartas escriptas da India e da China nos annos de 1815 a 1835 (por J. I. de Andrade a sua mulher D. M.ª de Gertrudes de Andrade). Lisboa: Imprensa Nacional, 1843 (2.ª ed., 1847; 3.ª ed., 1998). [Vol I / vol II ]

2. CALDEIRA, Carlos José, Apontamentos d’uma viagem à China e da China a Lisboa. Lisboa: Typographia de G. M. Martins, 1852-1855, 2 vols.

3. BORDALO, Francisco Maria,
a) Um passeio de sete mil léguas. Lisboa: Typographia na Rua dos Douradores, 1854;
b) «Sansão na vingança». (20) O Panorama, 1854.

4. RIBEIRO, Gregório José, De Macau a Fuchau. Cartas a J. M. Pereira Rodrigues, recordações de viagem. Lisboa: Typographia Universal, 1866.

5. SAMPAIO, Manuel de Castro, Os chins de Macau. Hong Kong: Typographia de Noronha e Filhos, 1867.

6. ARNOSO, Conde de, Jornadas pelo mundo. Porto: Magalhães & Moniz, Editores, 1895.

7. LOUREIRO, Adolfo, No Oriente. De Nápoles à China (diário de viagem). Lisboa: Imprensa Nacional, 1896.

8. CRESPO, Joaquim Heliodoro Callado
a) Cousas da China. Costumes e crenças. Lisboa: Imprensa Nacional, 1898;
b) A China em 1900. Lisboa: Manuel Gomes ed.

Todos estes livros, em maior ou menor grau, para além dos aspectos geográficos, abordam questões políticas e sociais, às vezes com um inesperado e desassombrado vigor, como é o caso de Carlos José Caldeira.

Exceptuando o livro do ‘marinheiro’ Gregório José Ribeiro, e o de Manuel Castro Sampaio, todos os outros se referem à cultura letrada chinesa clássica, citando sinólogos europeus e alguns autores portugueses na sua maioria eclesiásticos.

O que nestes textos interessa e justifica a sua inclusão neste trabalho é o facto de constituírem um conjunto de escritos sobre a China, e assim fazerem parte do corpus orientalista português do século XIX, que, na sua vertente sinológica, não prima pelo excesso como se sabe, mas que também não é de todo negligenciável, como poderia levar a crer o esquecimento a que têm sido votados. Independentemente do seu valor literário, estes textos reflectem sobretudo, de um modo diversificado e especificamente português, as ideias dominantes que circulavam então no Ocidente sobre a civilização chinesa.

A imagem da China sofre em Portugal o mesmo processo que no resto da Europa: a passagem de uma sinofilia a uma sinofobia, nos termos consagrados de René Étiemble (21). Esta mudança reflecte, nas suas particularidades, os moinhos de vento com que se debatia o pensamento europeu, e os ventos dominantes que, mais ou menos intensamente, chegavam cá também para moer a ‘farinha’ nacional.

Numa carta datada de 1826, intitulada «Defesa dos macaenses», o nosso já conhecido José Ignácio de Andrade escrevia:

«A distância em que se acha da Europa este nosso estabelecimento, dificulta chegar aí notícia verdadeira do que nele se diz e faz. Sendo a nossa gente remissa, em comunicar o pensamento às idades futuras, deixa correr impunes as calúnias, com que a deprimem estrangeiros malignos.» (22)

É graças à natureza não remissa de alguns- poucos, é um facto, mas uma razão mais para não os esquecermos- que temos também hoje uma imagem portuguesa da China. Nestes livros, o abandono da sinofilia é imediatamente perceptível, e é brusca a passagem para a sinofobia.

Da “sublimada civilização dos chinezes” de Ignácio de Andrade (23), que, como convidado ilustrado, percorre a China dos anos 1815-1830, e ouve palestras sobre a cultura chinesa em casa dos seus amigos Chá-Amui e Saoqua (onde, aliás, também explica a “filosofia experimental” europeia), passa-se para o testemunho de um fogoso iberista, Carlos José Caldeira (1852), que, chegando a uma China já devassada, concebe projectos rocambolescos de “guerra regular”, e indemnizações chorudas «à moda» (24), porque não?, dos outros europeus. Ele é já o protótipo do colonizador branco que se arroga direitos sobre uma terra particularmente rica e emite juízos sobre uma população cujas características morais são pintadas a “negras cores”, como dizia José Ignácio.

Também Francisco Maria Bordalo, em Um passeio de sete mil léguas (1854), não se furta a este tipo de juízos, embora diga escrever para repor a verdade contra os exageros tanto positivos como negativos que circulavam sobre os chineses.

Os dois livros que se seguem foram originalmente publicados sob a forma de folhetim no semanário macaense Ta-ssi-yang-kuo (1863-1866), cujo grupo fundador incluiu Manuel Castro Sampaio.

Nas setenta e sete páginas da obra  De Macau a Fuchau (1866), série de cartas-folhetins escritas pelo capitão-tenente da Armada, Gregório José Ribeiro, encontram-se poucas generalizações estereotipadas. Da descrição de «uma amofinada viagem de Macau a Fuchau» (25), em Dezembro de 1857, num navio de vela,

– «“Que queres tu? Não sabes que representamos aqui um sarcasmo, e uma ironia viva ao progresso? Obrigar neste tempo, um pobre navio de vela a navegar contra monção desta natureza é escarnecer das maravilhas do vapor, e de todos nós que sem lhe poder dar remédio recebemos este ultraje constante feito ao progresso e à intelectualidade!”» (26)

– ficam-nos sobretudo a visita ao magnífico jardim do templo em Amoi-cane, onde encontraram uns bonzos “tão bons” que até os deixaram caçar nos seus terrenos, o generoso trato dos habitantes trocando alimentos por prata, e, contrastando com a penosa navegação, as imagens amenas de bonança nas baías e enseadas:

«Ao desembarcar na praia de fina areia, que fazia lembrar Pedroiços, vi uma fonte natural entre rochedos, ornada de avenca magnífica e duma plantazinha miúda e cheirosa, que muito imita o trevo. Que saudades que eu tive Meu Deus, dos belos dias da minha infância, quando corria e brincava pelos campos queridos da minha terra natal! Na povoação, os pescadores vieram ao nosso encontro, trazendo tudo quanto tinham e que podiam reduzir a prata: belas abóboras, cebolas, ovos frescos, e gordas galinhas, formando assim de improviso, um mercado muito agradável. Era uma feira curiosa. Deixou-me uma sensação agradável que não me esquecerá jamais.»(27)

Manuel de Castro Sampaio, no livro Os chins de Macau (1867), se presta mais ao estilo generalizante pois, escreve ele com ingenuidade, trata «singelamente dos usos e costumes dos chins de Macau, suas indústrias, comércio…» (28). Sampaio descreve as habitações, as roupas, etc., e também as características físicas e psicológicas dos chins de Macau: um misto de bom e mau, cujo cômputo geral é negativo, mas que, segundo o autor, poderia melhorar sob a influência positiva dos ocidentais, convicção então assaz corrente:

«Os chins têm geralmente uma constituição forte, mas mediana estatura e pouca robustez. São muito cautelosos e desconfiados, e ao mesmo tempo pacíficos e humildes. Dotados de sagacidade e astúcia, estão sempre dispostos a enganar29. […] Contudo nestes últimos tempos a presença dos europeus na China tem-lhe feito um grande bem moral, porque já hoje os chins em grande parte estão desenganados dos muitos erros em que viviam. »(30)

Os restantes quatro livros da lista foram escritos na última década do século e têm em comum o facto de neles emergir sistematicamente, e já bem construída, essa imagem negativa dos chineses e subsequentes generalizações relativamente à sua cultura. Voltarei a abordar alguns deste livros mais tardios, nomeadamente os de Callado Crespo e o do conde de Arnoso.

De José Ignácio de Andrade, filósofo, ilustrado, humanista e anticlerical, poderá pois afirmar-se ser ele a única encarnação do espírito das Luzes desta lista, e o derradeiro representante de uma sinofilia clássica que reproduz a imagem de uma China utópica, modelar, com quem o Ocidente pode aprender. No seu livro encontramos os mesmos tópicos descritivos, arrolados por Laborinho

«[…] a geografia e a antiga história do rei; a grandeza da terra; a maravilha das construções (pontes, estradas, ruas, casas); o aproveitamento geral da terra; usos e costumes (em particular, os exames imperiais, as formas de cortesia e o esplendor das festas); a religião e os templos; a justiça» (31)

– constantes nas narrativas de viagens portuguesas quinhentistas à China, cujos autores Ignácio de Andrade, aliás, frequentemente cita:

«Albuquerque, Andrade, Tomé Pires, Gaspar da Cruz, todos concordam com Fernão Mendes Pinto, acerca da sublimada civilização dos chineses. Encontro hoje o mesmo acolhimento, e maneiras semelhantes […]. Nem podia deixar de assim acontecer; pois três séculos de duração têm menos influência nos hábitos, e usos chineses, do que trinta anos influem nas leis, e nos costumes da Europa! Se os homens, como as plantas, recebem qualidades inerentes ao país que os produz; os chineses mostram que no seu país existe o melhor temperamento do mundo.» (32)

A cultura chinesa clássica é profusamente ilustrada (com uma abundância de transcrições de textos chineses como não se verificará em mais nenhuma das obras referidas) sempre com o objectivo de instruir a sua amada Maria, e, através dela, o povo lusitano em que se mostra «haver carência de luzes» (33). Todos os tópicos clássicos são desenvolvidos positivamente e novos elementos “das Luzes” são introduzidos, como, por exemplo, a admiração pela racionalidade confuciana, um dos temas preferidos pelos filósofos sinófilos do século XVIII (34).

Todavia, encontra-se já no parágrafo citado a imagem da inalterabilidade da civilização chinesa, uma das ideias negativas que posteriormente virá a ser mais explorada. Esta concepção ocidental sobre a China será diversamente designada: Herder (1744-1803) compara-a a uma «múmia embalsamada», e quando o historiador L. von Ranke (1795-1886), incluindo a Índia, fala de «nations of eternal standstill», já Hegel (1770-1831) as tinha excluído da História do Mundo (35).

Por cá, o erudito Oliveira Martins chamar-lhe-á, em 1881, entre outras coisas, nada menos de que o «charco do positivismo chinês» (36).

Assim, do discurso panegírico se passa ao desencanto e à depreciação, e as causas deste processo são complexas. Na generalidade dos casos, sobrepondo-se a um interesse genuíno pela realidade chinesa, os estudos e as observações europeias sobre a China funcionaram como um reflexo da imagem da Europa sobre si mesma, como já foi referido. Consequentemente, quando nos finais do século XVIII e início do XIX, a ideia de progresso se tornou fulcral no pensamento histórico europeu, o que fora interpretado como ordem e harmonia, através dos escritos dos missionários jesuítas, transformava-se, segundo esta nova grelha de leitura, em estagnação civilizacional e inferioridade intelectual.

Segundo Ernest Rose, a imagem positiva que na Alemanha os “racionalistas” tinham da China (através dos jesuítas franceses) mudou radicalmente com Herder, «the great opponent of enlightened rationalism, who destroyed this image of China […]» (37).
O Estado chinês deixou de ser visto como uma instituição progressiva, mas sim como um produto dos “mongólicos” orientais, a mera petrificação de um modo primitivo de vida. Enquanto Herder tentou explicar o mecanismo do Estado chinês em termos etnológicos, Hegel abordou o assunto de um ponto de vista histórico. Ainda segundo E. Rose as fontes chinesas deste último foram principalmente os textos dos jesuítas e os relatórios dos embaixadores britânicos.

A nova imagem negativa do Império Celeste também está directamente relacionada com o movimento de expansão do imperialismo ocidental, inicial e predominantemente britânico. Não se trata, neste caso, da estratégia ‘dividir para reinar’, mas sim ‘diminuir para conquistar’. A sabedoria popular bem diz que ‘quem desdenha quer comprar…’ e actualmente a reflexão crítica sobre este processo sistemático da desvalorização do objecto desejado, este modo de depreciar o outro, é um dos campos teóricos que protagoniza um maior e complexo desenvolvimento. Na prática levaria a uma acção justificada por motivações até humanitárias, ultimamente apoiada nas teses das filosofias da história e das novas ciências, que o ‘renascimento oriental’ tinha, aliás, originado, permitido, catalisado.

Uma das características principais do livro fascinante de Ignácio de Andrade é o facto de ter sido construído em torno deste propósito fundamental: denunciar a barbaridade dos ingleses e a falsidade das ideias que eles divulgam sobre o Império Chinês donde «sempre foram repelidos» e que «por vindicta» descrevem «com as mais negras cores». Assim, muitas das ideias negativas que circulavam sobre a China seriam, segundo o autor, devidas aos bretões:

«O carácter dos ingleses é tão avesso do que têm os chineses, que desde Lord Anson até Lord Amherst, isto é, de 1741, época em que Anson entrou no rio Tigre, até 1816, quando Amherst chegou a Pequim, os bretões foram sempre repelidos; por isso tomam vindicta, descrevendo a China com as mais negras cores. Stauton diz que os vícios dos chineses excedem em muito as suas virtudes. Se a justiça é a primeira virtude que a moral impõe ao coração humano; se é ela quem ensina a distinguir as acções boas das más, assevero-te, que de todos os povos do mundo, são os chineses os que pesam justiça com rectidão.» (38)

Um ano antes da publicação das Cartas escriptas da India e da China (1843), num artigo intitulado «La Chine et les chinois», em que fazia a recensão do livro homónimo de litografias de Auguste Borget, publicado então em França, Balzac escrevia:

«La Chine, croyez-en un sinographe-né, les Anglais n’y ont encore rien vu ni connu. Nous devons à la réligion catholique et à nos sublimes missionnaires de vaincre encore aujourd’hui les anglais sur ce terrain, sans y avoir d’autre arme que le dévouement de nos martyrs, de nos prêtres partis de la rue du Bac. Quand lord Amherst y est allé, les mandarins ont tendu une infinité de paravents le long de la route; et l’ambassade anglaise a marché entre deux formidables lignes d’illusion, de décorations d’opéra, de choses peintes. […] Or, l’Anglais ne voulant pas reconnaître ce précédent, entortillé dans d’autres difficultés d’étiquettes, a rebroussé chemin, toujours entre deux haies de mensonges et de farces chinoises, que les mandarins tiennent prêts pour tous les Macartney qu’on leur enverra.»(39)

A propósito das embaixadas britânicas é impossível não referir o incontornável livro de Alain Peyrefite, L’empire immobile ou le choc des mondes (1991), em que o autor reúne e comenta excertos dos diários de alguns participantes na missão de MacCartney (1792-1794). Apesar do seu insucesso, esta embaixada foi rapidamente seguida pelos missionários protestantes que dificilmente tinham conseguido penetrar na China, pelo menos até «apanharem boleia» nas canhoneiras britânicas.

Ironicamente, segundo Mackerras, enquanto este impacto inicial nas mentes chinesas foi negligenciável, o mesmo não se pode dizer sobre a sua influência no Ocidente tendo sido determinante o papel destes missionários na modificação da atitude dos europeus em relação à China e aos chineses. E isso através dos artigos e livros que publicaram.

Dentre estas obras é de destacar The middle kingdom, da autoria de S. Wells Williams, cuja primeira edição data de 1848. No prefácio pode ler-se que um dos seus objectivos é livrar os chineses e a sua civilização

«“of that peculiar and almost undefinable impression of ridicule wich is so generally given them; as if they were the apes of Europeans; and their social state, arts, and governement, the burlesque of the same things in Christendom”»(40).

Por mais incrível que possa parecer, tendo em vista os seus propósitos, este missionário – que foi também editor, entre 1833 e 1851, da célebre revista literária e histórica, The Chinese Repository (41) – é responsável pela divulgação e reforço de uma série de juízos negativos sobre as características morais dos chineses, os quais, a partir de então, passarão a constar em quase todos os livros sobre a China.

Com efeito, nunca mais se lerá, nos livros portugueses referidos, um discurso laudatório em relação à China do mesmo tipo do das Cartas de J. Ignácio de Andrade que Francisco M. Bordalo, oficial da Marinha de Guerra, apelida de «exagerações apologéticas» na sua obra Um passeio de sete mil léguas:

«Agora passo a concluir as minhas observações sobre a China; serei breve, porque não quero repetir as patranhas que a seu respeito se têm dito, em bem ou em mal, desde as exagerações apologéticas do sr. José Ignácio d’Andrade, até ao vulgo dos ignorantes, que reputa o Celestial Império como um receptáculo de idiotas ou covardes [...].»(42)

Como refere incisivamente, Bordalo pretendia divulgar «um juízo mais exacto do que é a China, e os chineses», contrariando

«as fábulas impressas, que têm curso legal no nosso país, autorizadas, elogiadas, e proclamadas como quinto evangelho, por quatro pedantes, alcunhados de sábios e homens de letras, críticos professos, e juízes infalíveis de tudo que sai dos prelos»(43).

Todavia, também ele, apesar destes propósitos de imparcialidade, alinhava uma série de considerandos generalizantes e negativos sobre a cultura e as características dos “chins”:

«Tenho visto, traduzidas, algumas poesias, em que há muito d’aquele metafórico estilo oriental, e também algumas peças de uma singeleza tocante; mas grandes rasgos de imaginação, poemas de comparar aos nossos, nenhuns (44). [...] Na pintura estão muito áquem de qualquer medio-cridade europeia… (45) [...] quanto a mim, a imperfeição é um dos primeiros característicos das obras chinesas; [...] (46) Toda esta gente é muito libidinosa, indolente e sofredora; são óptimos marinheiros, péssimos soldados, zelosos patriotas, incapazes de esquecerem a injúria, e não muito lembrados do benefício.» (47)

Conservadorismo, piedade filial, “turvação” intelectual, desprezo pelos estrangeiros, falta de espírito público (48), insinceridade, crueldade, falta de simpatia e compaixão pelo sofrimento dos outros, insensibilidade à dor (49), etc., etc..
Tal como no rol de Francisco M. Bordalo, a lista das características negativas do povo chinês é bem maior do que a das positivas numa obra de outro missionário, o americano Arthur A. Smith, justamente intitulada Chinese Characteristics (1890). A sua obra contou com cinco reedições na última década do século XIX, anos em que culmina a voracidade imperialista do Ocidente na China, e MacKerras afirma que «the effects the images he portrays is support for cultural, even military intervention» (50).

O estilo dos livros portugueses publicados então, mesmo os que se destacam pela genuinidade de algumas passagens, é também caracterizado pela generalização e pela superficialidade quando abordam a cultura da China, e as características morais dos seus naturais: encontram-se repetidamente, em quase todas as obras, as mesmas ideias, apreciações, conclusões, que recriam e reforçam alguns estereótipos negativos.

Simultaneamente, de um modo aparentemente contraditório, estes autores são capazes de algumas observações perspicazes, em que é patente uma certa crítica aos ocidentais, ao seu modo de agir e aos seus costumes. J. H. Callado Crespo, no seu livro Cousas da China. Costumes e crenças (1898) – onde podemos encontrar, depois de Ignácio de Andrade, o maior número de referências a autores estrangeiros, nomeadamente aos formuladores de imagens (os missionários S. Wells Williams e A. Smith entre outros) como lhes chama MacKerras – escreve, por exemplo, um pequeno artigo dedicado à deformação dos pés, tema recorrente em todos estas obras. Após ter falado sobre as origens possíveis de tal costume e de tecer considerandos irónicos sobre a campanha «contra aquela deformação, por iniciativa de senhoras inglesas… a quem Deus conserve os grandes pés que têm» (51), o autor estabelece perspicazmente uma comparação com o costume do uso do espartilho:

«E além d’isso temos nós a força moral para ir pregar contra um costume bárbaro, é verdade, quando nós os povos civilizados bem precisávamos que os chineses viessem fazer propaganda a nossa casa a favor das suas túnicas e cabaias? Não usam as nossas mulheres outra moda de piores consequências que a deformação dos pés? Pois o espartilho não é pior? Quantas mulheres, devido a ele, não têm sido vítimas de doenças que legam, como herança terrível, aos filhos inofensivos? [...] Qual é mais ridículo, uns pés de cabra, ou uma cintura de vespa?» (52)

E sobre o tão falado ódio ao europeu:

«O chinês não tem rancor ou ódio ao europeu, como erradamente tanta vez se tem dito, despreza-o. Despreza-o, porque o europeu é de uma raça diferente que se apresenta elogiando o seu país e a sua civilização, prova de que não é bem educado, porque apresenta em público a sua mulher e as suas filhas mais “indecentemente” vestidas do que ele próprio, com fatos justos desenhando as formas do corpo, e sobretudo porque se ri da cerimónia do culto dos antepassados.» (53)

Claro que Callado Crespo estava errado, pois os chineses, para além de desprezarem os europeus, tinham todas as razões para os odiarem, como explica C. José Caldeira:

«O desprezo e o ódio que as autoridades chinesas muitas vezes manifestam contra os Europeus, e a indiferença e o desdém com que o geral da nação olha para tudo o que é estrangeiro, é sem dúvida ridículo e censurável; mas em grande parte se pode atribuir ao efeito que há produzido, no espírito deste povo, o modo de sentir e de proceder para com ele da maior parte dos Europeus.» (54)

Mas não nos adiantemos mais e recuemos aos anos que precedem a efectiva intervenção militar da Inglaterra na China, para indagar sobre os estudos de chinês em Macau.

2.2.2. Os Estudos sinológicos em Macau

p.49
[ Carlos José Caldeira, China, Shangai, Março de 1851, delegação portuguesa- “relações políticas” - mediação de Conde Kleezkowski -Longe vão os tempos do kotow ou não-kotow  -embaixada de Lord Amherst (1816-7) - Jiaqing (1796-1821) -missão inglesa expulsa - “lama estrangeira”, ópio (anfião) introduzido pelos Ingleses, desde 1773 inunda China- Eça de Queirós-Francisco Mª Bordalo, Um passeio de sete mil léguas (1854) - 1860, Zongli Yamen, Ministério dos Negócios Estrangeiros- tratado de Tianjin,1862 –nova mediação do Conde Kleczkowski- Tratatos luso-chineses- António Feliciano Marques Pereira- secretário nas duas missões oficiais à China (1862 e 1864), Ta-ssi-yang-kuo –traduções- Questão de Macau  -1865,  intérpretes de língua sínica, cursos- sinólogo Pedro Nolasco da Silva- Tratado de 1887 -sinólogos anteriores: João Rodrigues Gonçalves (1806-70) e José Martinho Marques (1810-67)- Manuel de Castro Sampaio (1827-75), Os Chins de Macau (1867), «magnífica livraria sínica »-construção da imagem - Jornadas pelo mundo, Conde de Arnoso, 1887 - intérprete da legação, Pedro Nolasco da Silva- negociações “à chinesa” -relato da excursão à Grande Muralha, 1889, (vol.I, Revista de Portugal,  Eça de Queirós)- descrição do almoço de despedida almoço de despedida- episódio das ceroulas ]

Contemporâneas do regresso a Portugal de Ignácio de Andrade em 1837, são as indicações enviadas pela corte portuguesa ao então reitor do Colégio de São José e procurador das missões da China em Macau, padre Joaquim José Leite. Estas ordens régias, datadas de Julho de 1838, para além de outras recomendações, determinavam que o padre Joaquim Afonso Gonçalves > se empregasse nas traduções «dos Livros Chineses que contenham conhecimentos úteis» (55). Também se incumbia o reitor da criação de um museu de produtos raros chineses e da formação de uma «Livraria composta de Livros e mapas chineses, japoneses, ou escritos em outras línguas orientais» (56).

Segundo António Aresta, as novas determinações régias correspondiam a

«uma verdadeira revolução coperniana quanto ao âmbito, valor e importância da sinologia e dos estudos sínicos em geral. Pela 1.ª vez eram expedidas indicações concretas e objectivas no sentido de transferir os estudos sínicos da esfera política para a esfera cultural. A Corte tinha-se apercebido que pelos caminhos da cultura e das relações culturais se poderiam obter ensinamentos preciosos e vantagens pragmáticas a utilizar na condução dos negócios políticos» (57).

…. …...…..ver reedições de 2010

Entretanto, e como já foi mencionado, o padre Joaquim A. Gonçalves (58) não esperara pelas ordens régias para ir elaborando as suas “obras luso-chinesas”, como as designa Carlos José Caldeira que a ele se refere nos seus Apontamentos d’uma viagem à China e da China a Lisboa  (1852-1855). Este nosso viajante, que gostava de “escrevinhar”, como ele próprio declara, inicia assim o seu relato:

«Ainda é muito pouco comum entre nós Portugueses o gosto de viajar, eu desde a minha mocidade nutri o desejo de ver o mundo, de sair da minha pátria, e do estreito círculo da cidade e do país em que nasci. [...] Parti de Lisboa em Julho de 1850, na carreira para a China dos vapores ingleses da Companhia Oriental e Peninsular e dentro em 50 dias cheguei a Macau [...].» (59)

Reside no território de Macau entre 1850 e 1851 – numa altura em que o relacionamento sino-ocidental se viu radicalmente alterado com a imposição da política das potências ocidentais, encabeçadas pela Grã-Bretanha, que forçaram o sinocentrismo do Império do Meio – e a convite do bispo (presidente do Conselho), toma a seu cargo a redacção do Boletim do Governo de Macau (60). De volta à Metrópole, publica em 1852-1853 o relato da sua experiência. Comentando o estado de “grande decadência” em que se encontrava o Colégio de São José, lembra um dos seus mais distintos professores:

«Um dos mestres da língua sínica foi o ilustre filólogo Pe. Gonçalves, que compôs numerosas obras luso-chinesas, tidas em apreço entre os estrangeiros e ainda hoje as mais completas neste género, mas bem pouco lembradas em Portugal [...].»(61)

Carlos José Caldeira estava bem consciente do papel fundamental exercido pelo Colégio de São José onde tinha havido «estudos especiais para a língua chinesa, e onde se formaram hábeis intérpretes, tão necessários para o serviço público da colónia [...]». (62).

Note-se que antes deste Colégio de São José e com a função de «educar padres portugueses e chinas para as missões do império» (63) já havia sido fundado pelos jesuítas o Colégio de São Paulo. Este interesse dos jesuítas pela língua e cultura chinesas tinha o objectivo principal de levarem a cabo mais eficazmente a sua missão evangelizadora. Eles foram os primeiros intérpretes culturais e valha à história do encontro Ocidente-Oriente na China, que essa fase inicial tenha sido positivamente «o mais exemplar fenómeno de encontro de culturas registado na história» (64).

A necessidade de formação de orientalistas e de sinólogos, ou pelo menos e mais modestamente falando, de intérpretes com competência sinológica, só se verifica de modo relevante a partir da alteração do estatuto político do território em 1849, quando a jurisdição portuguesa se estende a toda a população portuguesa e chinesa (65). Situação, aliás, que se vinha definindo desde a altura em que o Governo chinês, derrotado na Primeira Guerra do Ópio (1839-1842), se vê obrigado a capitular perante a Inglaterra (e depois os Estados Unidos e a França), tendo sido então negociados os primeiros «tratados iníquos» (66) entre 1842 e 1844.

A partir desta altura assiste-se à dispersão da comunidade estrangeira e dos respectivos sinólogos e intérpretes, religiosos e laicos, numa China agora aberta, e a uma forte transferência de capitais culturais e outros, nomeadamente para a vizinha Hong Kong estabelecida em 1842.

2.2.3. As novas relações políticas e os seus intérpretes nos livros de viagens à China: de Carlos José Caldeira ao Conde de Arnoso

p.51

Quando Carlos José Caldeira afirma, como já foi referido, serem os intérpretes da língua chinesa «necessários para o serviço público da colónia»< (67) não fala de cor. Na sua viagem à China deslocou-se a Xangai em Março de 1851, integrando a delegação portuguesa que ia estabelecer “relações políticas” com as autoridades desta cidade. Pelo relato de um curioso episódio que teve lugar durante um dos contactos entre os portugueses e as autoridades chinesas na tentativa do estabelecimento de um cônsul português em Xangai, fica-se a saber que o intérprete português se terá limitado a preparar os famosos cartões de visita «ao modo china, com os caracteres apropriados para designar cada um dos visitantes» (68), cabendo o papel activo de mediação ao conde Kleczkowski (69), chargé d’affaires e intérprete da Legação francesa.

Nestes anos que se seguem ao estabelecimento forçado das relações políticas entre o Ocidente e a China, «a singular maneira de conduzir os negócios na diplomacia do celestial império» (70) viu-se radicalmente alterada. Bem longe estão os tempos do «kotow ou não-kotow» (71), quando a última embaixada de Lord Amherst (1816-1817) foi repelida e o imperador Jiaqing (1796-1821) redigiu para os arquivos:

«“O imperador da China é o senhor soberano do mundo. Poderíamos nós aceitar uma tão arrogante mostra de presunção e falta de respeito? Promulguei imediatamente um decreto ordenando a expulsão da missão”.» (72)

A missão inglesa foi realmente expulsa, mas o que já tinha irremediavelmente penetrado era a “lama estrangeira”, nome dado ao ópio (anfião) com que os ingleses, sobretudo desde 1773, inundaram a China (73). Chegara a vez da China ser devassada, rapinada, ‘civilizada’. Era um osso mais duro de roer, muito mais duro que a Índia mas, como se sabe, as drogas quebram, acorrentam, corrompem. Erguem e arruinam impérios.

Como escreveu Eça de Queirós, meio século depois da Primeira Guerra do Ópio, «o ópio enerva, envenena, destrói, desmoraliza as raças» (74).

Francisco M. Bordalo, o já citado autor de Um passeio de sete mil léguas (1854), testemunha a tragédia e exprime assim a sua desilusão e desgosto nestes “versinhos” sem título, escritos em Janeiro de 1852, «num momento de spleen na Boca do Tigre, a bordo do vapor Canton» (75):

Como é belo, ao lar natal,
Histórias ouvir contar
Da grandeza oriental,
Das peripécias do mar!
Assistir, c’o pensamento,
As cenas d’encantamento
Que o poeta reproduz…
Sem nunca as presenciar!
É pintura que seduz,
É quadro d’entusiasmar…
Mas vinde olhá-lo de perto
Que o desengano está certo. [...]
Soltem-se velas ao vento,
Suba o fumo do vapor,
Dê-se o barco ao movimento
Sofra-se áspero calor, –
Que lá na remota China
Nos aguarda extensa mina
De pasmosa distracção…
Oh que quadro multicolor
Em Hong Kong, Macau, Cantão
Perlas d’imenso valor…
Embalai-vos forasteiros
Nesses sonhos lisonjeiros!

A triste realidade
Tal esperança vai murchar
Ao aspecto da verdade
Desejareis recuar…
Há [a]í marmóreas fachadas,
Mil colunas elevadas
De Hong Kong nas ruas, nas praças;
Contemplareis no bazar
Da indústria chinesa as graças
Todo o seu luxo ostentar, –
Mas vereis um trato odioso,
Um comércio venenoso!…

Bandos de homens europeus
Que só pensam no anfião,
Errantes, como judeus,
De Xangai até Cantão,
Chamando aos chins traidores –
Eles!… os seus roubadores,
Que vão levar-lhes a peçonha
No estampido do canhão!…
Espoliadores, sem vergonha,
Desta mísera nação…
Que exemplo de caridade!
Que santa moralidade! [...]» (76)

Acabara-se o sistema tributário e o governo imperial foi forçado a aceitar o sistema euro-americano de relações diplomáticas.

Em Janeiro de 1860 foi criado o Zongli Yamen, o Ministério dos Negócios Estrangeiros que funcionou durante quarenta anos. Portugal, tal como as outras nações que a reboque das “Quatro Grandes” não tardaram em exigir tratados que lhes permitissem viajar, negociar, missionar, residir e estabelecer consulados na China, tinha, para além do mais, de definir o estatuto jurídico-político de Macau; para tal também celebrou o Tratado de Tianjin em 1862 sob os auspícios da Legação francesa e, uma vez mais, com a mediação do conde Kleczkowski, anteriormente referido por Carlos José Caldeira.

O âmbito deste livro não permite que me alongue sobre as peripécias dos tratados luso-chineses (77). É de salientar, porém, que as diferentes interpretações do texto do tratado de 1862 que resultavam das suas diferentes traduções – a portuguesa, feita a partir de uma tradução francesa que nem sequer foi confirmada e que não correspondia à versão chinesa… – faziam com que os governos chinês e português falassem de coisas diferentes e em dois pontos essenciais: a soberania da China em Macau e o direito da permanência de um mandarim no território. Como se sabe, tudo isto levou a um impasse que se arrastou por mais de duas décadas até ser parcialmente solucionado com o Tratado de 1887. Foi todo um processo que se enredou de um modo extraordinário com a intromissão interesseira dos representantes dos governos das grandes potências.

Denotando consciência desses trâmites são os artigos de António Feliciano Marques Pereira (78). Este lisboeta da geração que sucedeu à de Ignácio de Andrade, foi secretário nas duas missões oficiais à China (1862 e 1864), cujo relato publicou no semanário macaense, que ele ajudou a fundar e apelidou significativamente de Ta-ssi-yang-kuo, expressão que, como já explicara C. José Caldeira, significava o Grande Reino do Ocidente. António Vasconcelos Saldanha avalia todo este processo inicial da Questão de Macau e observa:

«O ciclo vicioso da leviana confiança de Lisboa nas capacidades “sinológicas” da comunidade e do funcionalismo macaense, e o geral alheamento destes em relação a qualquer pensamento que não fosse a tradicional gestão corrente dos expedientes de sobrevivência da relativa prosperidade do estabelecimento, legitimado por uma cómoda alegação de “neutralidade” face à política das outras nações ocidentais, tiveram consequências das mais amargas para os interesses portugueses na região, que nem o mérito comprovado de vários Ministros-Governadores puderam fazer superar» (76)

Só em 1865 se assiste a iniciativas concretas da parte do Governo de Lisboa, que visam colmatar estas carências sinológicas em Macau. Assim, devido «“às frequentes relações que as suas autoridades têm com o império chinês” e a “especialidade da sua população”» (80) decreta-se a criação de um corpo de quatro intérpretes de língua sínica, para o que se abriram cursos na Procuratura dos Negócios Sínicos, designada por Repartição Técnica do Expediente Sínico a partir de 1884. Esta foi chefiada, entre 1885 e 1892, pelo nosso já conhecido sinólogo Pedro Nolasco da Silva, «um digno sucessor de Joaquim Afonso Gonçalves no respeitante às preocupações pedagógicas e culturais na didáctica da língua chinesa» (81), o qual servirá de intérprete da missão diplomática de Tomás Rosa a Pequim para as negociações e a assinatura do Tratado de 1887.

Nolasco da Silva já pertence a uma geração posterior à de João Rodrigues Gonçalves (1806-1870) e José Martinho Marques (1810-1867), os sinólogos activos na década de 1860 em Macau. Este último é considerado um “hábil intérprete da língua sínica” por Carlos José Caldeira e um outro contemporâneo, o portuense Manuel de Castro Sampaio (1827-1875), oficial do Exército que fez parte da guarnição militar de Macau, fundador com A. F. Marques Pereira do semanário Ta-ssi-yang-kuo.
Sampaio declara no prefácio da sua peculiar obra Os chins de Macau (1867), ter consultado o então sinólogo do território, João Rodrigues Gonçalves, e ter tido uma ajuda preciosa por parte de Martinho Marques, já falecido, que pôs à sua disposição «todos os apontamentos que tinha feito e arrecadado na sua magnífica livraria sínica» (82). Segundo Castro Sampaio, este distinto sinólogo achava

«que muitas das coisas que diversos autores europeus contam da China nunca existiram nem sequer foram sonhadas no celeste império. A questão, acrescentava ele, consiste em terem errado os primeiros que se ocuparam de assuntos chineses, e em irem os posteriores colher bases àquelas fontes.» (83)

É particularmente interessante este juízo acerca da repetição de ideias inexactas e já anteriormente se abordou o tema da construção da imagem.

A actuação de Pedro Nolasco da Silva como intérprete é mencionada num dos mais genuínos livros de viagens à China, Jornadas pelo mundo, da autoria do conde de Arnoso (84), literato e diletante do grupo dos “Vencidos da Vida”, que integrou a missão diplomática portuguesa a Pequim em 1887. No trecho que a seguir se transcreve, a legação encontrava-se em Tianjin e fazia uma visita de cortesia ao poderoso vice-rei Li-Hung-Chang, «que passa por ser o primeiro homem de todo o império [...] o grande amigo do general Gordon com quem combateu os rebeldes de Taiping» (85). Tudo é muito cortesmente descrito:

«Ao abrirem-se os dois batentes da porta dos monos, surgem diante de nós três mandarins, vestidos de frescas cabaias claras, com os seus chapéus na cabeça, de botão e panacho vermelhos, e a pena de pavão, insígnia de alta dignidade; atrás, criados perfilam-se impassíveis.
O intérprete da legação, o snr. Pedro Nolasco da Silva, que é um sinólogo distintíssimo falando correntemente a língua mandarina e a língua de Cantão, declina os nossos nomes. Os mandarins, curvando-se levemente, arqueando os braços e cruzando as mãos, cumprimentam repetindo a palavra shing-shing. [...]
Dois dos mandarins falam inglês: um esteve nas embaixadas em Londres, o outro em S. Petersburgo e Paris.» (86)

Nas páginas em que o autor descreve pormenorizadamente a recepção da legação portuguesa na sua primeira ida ao Zongli yamen, em Pequim, é de novo referido o primeiro intérprete português:

«A legação portuguesa é recebida no limiar d’essa porta pelos ministros do Tsung-Li-Ya-Men tendo à sua frente o príncipe Ching. [...] O nosso intérprete, o snr. Nolasco da Silva, traduz os cumprimentos que entre o ministro de Portugal e os ministros do Tsung-Li-Ya-Men se trocam. Os nobres mandarins, saboreando a pequeninos goles o perfumado chá, armam-se d’óculos monstruosos para melhor nos verem e examinar. Falam todos a um tempo dizendo em palavras d’ouro, queremos crer, coisas doces e amáveis.»(87)

As discussões diplomáticas arrastam-se durante cerca de quatro meses. O autor descreve com ironia, temperada de um certo tom preconceituoso, estas negociações “à chinesa” e torna patente a grande dose de saber sinológico necessária e a importância do intérprete:

«Como é em conferência com todos os membros do Tsung-Li-Ya-Men que se tratam os negócios diplomáticos, pode bem calcular-se a soma de habilidade que é necessária a um negociador para os fazer chegar a um acordo. Tanto mais que os secretários, quando vêem que os ministros se deixam levar de vencida, saltam das bancadas onde de ordinário mudos taquigrafam as sessões, acudindo de reforço a Murillo n’uma grande grita com argumentos novos que porventura escaparam no calor da discussão. Um inferno!» (88)

Mas o tempo faz-se longo, apesar da estada em Pequim ter sido aproveitada principalmente em passeios turísticos na cidade e nos seus arredores.
O relato da excursão à Grande Muralha, aonde se deslocaram de liteira e carreta, e no cimo da qual, «de pé e descobertos» (89), beberam à saúde d’El-Rei de Portugal, é publicado em 1889, no volume I da Revista de Portugal cujo director era Eça de Queirós >. Finalmente, chegaram os últimos dias e o conde descreve o banquete das despedidas.

«Por isso foi com verdadeiro prazer que no Tsung-Li-Ya-Men comemos no dia da assinatura do tratado o almoço de despedida. [...] À esquerda do Príncipe Shin, conforme manda a etiqueta china, sentava-se o ministro de Portugal; à direita, nós. Seguiam-se por ordem de preeminências, os restantes membros do Tsung-Li-Ya-Men e Sir Robert. Não se faz ideia da quantidade de pratos de que constou tão pantagruélico almoço. [...] Fizeram-se as saúdes do estilo [...].
De perna traçada e saboreando um charuto, um dos mandarins, tendo lobrigado o tecido de malha das minhas ceroulas, pediu-me que levantasse um pouco mais a calça para ver o que aquilo era! Satisfiz-lhe a curiosidade, e todos à uma se extasiaram diante de tão simples artigo de toilette.
Entre mesuras e Shins-shins abandonámos o Tsung-Li-Ya-Men recolhendo a casa, na rua das Legações, onde para a despedida nos esperavam os colegas com quem mais de perto tínhamos vivido.» (90)

Não sei que peças de vestuário terá deixado o conde de Arnoso pela China em troca da famosa cabaia > que trouxe… mas não há dúvida que nestas Jornadas viveu episódios bem saborosos. Muito provavelmente, para além de se terem extasiado com o “artigo de toilette” do escritor, os mandarins devem ter confirmado a propriedade da apelidação de “peludos” aos fan guei, os diabos estrangeiros do Ocidente.

Como já anteriormente reconheci, não me é de todo possível, nem esse é o meu propósito, detalhar as circunstâncias históricas subjacentes às produções textuais que tenho vindo a apresentar. No entanto, o alheamento completo destas é impossível, como se torna evidente tanto no caso dos viajantes portugueses que escreveram sobre a China e os seus costumes, como no caso da sinologia portuguesa desenvolvida em Macau. Esbocei um breve quadro em que tentei valorizar também o aspecto pessoal e anedótico. E este quadro ficaria incomparavelmente mais pobre, se nele não integrasse um dos seus expoentes mais dotados.

Noutra parte deste livro falo de Camilo Pessanha, o poeta que arrastou e extremou o seu mal de vivre lá nesse Oriente português – «Terra qui nôsse Rê chomá lial» (91)– a do doce papiaçam. De acordo com António Aresta

«ele é bem o paradigma dessa sinologia cultural, atenta à realidade chinesa cujo desencanto é sublimado pela poética e pela arte» (92).

Servir-me-ei entretanto de alguns ecos jornalísticos do acordo de 1887 para fazer uma incursão até à Metrópole e de um modo que não pretendo exaustivo, esboçar um panorama do orientalismo académico de cariz sinológico no Continente. Mas antes disso não posso deixar de dedicar alguma atenção a um livro de ficção publicado alguns anos antes em Portugal, em que a personagem principal, um típico bacharel “amanuense do Ministério do Reino”, empreende uma fantástica viagem a uma China estereotipada.

2.2.4. A China de O Mandarim de Eça de Queirós

p.58

Este conto fantástico do conhecido escritor, cuja publicação, sob a forma de folhetim, se iniciou em Julho de 1880, no Diário de Portugal  e sob forma de livro no final desse mesmo ano, tornou-se já objecto de credenciados estudos onde foram detalhadamente inquiridas as suas fontes e a origem do chamado ‘paradoxo do mandarim’ (93).

Beatriz Berrini, nomeadamente, compara as versões jornalística e em livro, recenseia as várias ocasiões em que Eça de Queirós alude ou fala da China e dos chineses nos seus escritos e até analisa a imagem da China que a sua obra veicula.
Contudo, é significativo notar que, de todas as inúmeras fontes citadas, como possíveis repositórios de informações sobre os costumes e as paisagens chinesas, não são referidos nenhuns dos livros portugueses de viagens à China anteriormente publicados, o que mostra bem quanto eles são pouco conhecidos (94). O que é realmente lamentável, na medida em que, nessa altura, nenhum português poderia dizer o que afirmava, por exemplo, já em 1867, o francês Comte Ludovic de Beauvoir, face à abundância de publicações no seu país sobre o Império Chinês:

«D’ailleurs, à force d’être extraordinaire, l’Empire du Milieu est devenu sinon chose ordinaire, du moins chose très connue [...]. Les centaines de publications qui ont mis la Chine en relief me découragent dès la première heure de vous en parler.» (95)

Tivessem esses livros portugueses sido levados em conta e decerto se teria aproximado a personagem do diplomata Camiloff com o conde Kleczkowski da Legação francesa, várias vezes mencionado por Carlos José Caldeira. E é impossível não nos lembrarmos de alguns trechos dos seus Apontamentos d’uma viagem à China e da China a Lisboa, quando lemos certas passagens, nomeadamente aquela em que Teodoro exclama:

«– E todavia, general, no meu país, quando a propósito de Macau, se fala no Império Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: Mandamos lá cinquenta homens e varremos a China.» (96)

Sobre as obras consultadas por Eça de Queirós, e como não deixou nenhuma lista com a sua enumeração, podem escrever-se interessantes e eruditas suposições e não quero também deixar de aventar que tenha lido o que então se escrevera em português sobre a China. Isto, se ele, tal como a sua personagem, tentou informar-se exaustivamente sobre o Império do Meio:

«Ansiei por saber se na verdade a desaparição de Ti-Chin-Fú fora funesta à decrépita China: li todos os jornais de Hong-Kong e de Xangai, velei a noite sobre as histórias de viagens, consultei sábios missionários – e artigos, homens, livros tudo me falava da decadência do Império do Meio, províncias arruinadas, cidades moribundas, plebes esfomeadas, pestes e rebeliões, templos aluindo-se, leis perdendo a autoridade, a decomposição de um mundo como uma nau encalhada que a vaga desfaz tábua a tábua!…» (97)

Em O mandarim desfilam as figuras estereotipadas que circulavam e se reproduziam nos relatos sobre o Celeste Império, e a atmosfera geral da obra é de tal modo parodiante que estas descrições têm o efeito de caricaturizar tanto os chineses como os ocidentais.

Encabeçando os estereótipos degradantes vemos as criancinhas abandonadas que assombram, “ó tortura realmente chinesa!” os pesadelos de Teodoro ainda mesmo antes de ele abalar para a China. Era a descendência do mandarim assassinado… In loco, voltaremos a encontrar as pobres inocentes ou os seus cadáveres, e a turba, a “multidão rumorosa e espessa”, os bandos de mendigos, os presos atados pelos rabichos, os condenados enjaulados, as gaiolas com cabeças pingando sangue; e as muralhas, os monumentos, os templos com nomes que são verdadeiros achados: Palácio da Soberana Concórdia, Pavilhão das Flores das Letras, Quiosque dos Historiadores, Palácio da Bondade Preferida, Pátio dos Arquivos

Caricatural é também a descrição do atarefado e serviçal Camiloff e de toda a burocracia administrativa imperial – «Que episódio administrativo tão pitoresco, tão chinês!» (98) – tentando descobrir o paradeiro do mandarim, enquanto nos quiosques perfumados, o nosso amaduense “tecia horas de seda e oiro” aos pés da generala que sonhava com Paris e Dumas filho…

Caricatural é ainda a descrição dos santos padres lazaristas que o recolhem no seu convento onde ensinam latim aos chinesinhos: o bom padre Giulio já com ar de chinês, que cheirava a alho e gostava de comer confeites de açúcar e acariciar o gato enquanto lia o breviário; o alegre padre Loriot que lhe levou uma carta lacrada com o selo do convento: «uma cruz saindo de um coração em chamas…» (99) (não era de admirar o pavor chinês pelos símbolos cristãos…).

Orlando Grossegesse, ao contextualizar a produção das duas obras orientalistas de ficção de Eça de Queirós – exercícios tornados, pelo seu estilo parodiante, ainda mais heterodoxos num projecto de escrita realista –, dá-nos uma análise teoricamente afinada da escrita orientalista de O mandarim e do que ele considera não uma leitura directa do Oriente, por parte de Eça de Queirós, mas sim uma leitura eminentemente crítica do orientalismo, resultando no que designa pela fórmula de «escrita orientalista em segundo grau» (100).

Com efeito, neste livro encontram-se, filtrados pela magia irónica de Eça de Queirós, não só os estereótipos que circulavam então sobre o Império Chinês, como se alude às peripécias dos tipos ocidentais que pululavam então na China, nomeadamente, as relativas às burocracias que se desenrolavam nos Yamens do Estado.

Estas negociações “à chinesa”, como já vimos, foram posteriormente descritas pelo conde Arnoso que integrou a Legação portuguesa que negociou o Tratado de 1887 com a China. E esse tratado foi tema, em Portugal continental, de diversos considerandos, que proponho abordar no próximo capítulo, ou não fossem eles mais umas amostras do nosso orientalismo sinológico.
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Notas ao capítulo 2

1-António ARESTA, «A sinologia portuguesa», p. 16. [adenda ( julho 2012) : ver Os estudos sínicos no panorama da história da eduação em Portugal  in Administração, n.º 38,vol.X,1997,1045-1069. ]

2 -Joaquim A. de Jesus GUERRA, «A lira chinesa de Machado de Assis», p. 97. Em nota ao parágrafo transcrito pode ler-se: «Felizmente que dispõe hoje a cultura de língua portuguesa dessas obras já impressas, traduzidas pelo Padre Joaquim Guerra: Quadras de Lu e relação auxiliar, Macau, Jesuítas Portugueses 1981-83. Quadrivolume de Confúcio; O Livro dos cantares; As Obras de Mêncio; O livro das Mutações; Escrituras selectas, Macau, Instituto Cultural 1990.» Óptimo. Agora encontrá-las nas livrarias é que é outra história, ou melhor a mesma…

3- Wenceslau de MORAIS, A vida japonesa, pp. 204-206.

4- As primeiras obras dos nossos missionários remontam ao século XVI com o pioneiro Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da china (1569) do dominicano Gaspar da Cruz. Mas o primeiro missionário a distinguir-se pelo conjunto da sua obra é Álvaro Semedo: «[…] aí por volta de 1640 surge um novo dicionário luso-sínico (o 1.º dicionário sino-europeu do mundo é um dicionário Português-Chinês, provavelmente escrito entre 1584 e 1588 pelos padres jesuítas Matteo Ricci e Ruggieri) desta vez da autoria de um Jesuíta português, Padre Álvaro Semedo (1586-1658), bem conhecido pela sua Relação da Grande Monarquia da China (1637, traduzida em francês em 1645), autor de dois léxicos manuscritos, português-chinês e chinês-português»(João de Deus RAMOS, «Os dicionários luso-sínicos», p. 43). (Ver obras de Semedo digitalizadas: in Bibliotheca Sinica 2.0;  Versão espanhola 1647: cópia digital BNP)

5- O padre lazarista  Joaquim Afonso Gonçalves  (ler  artigo  por António Aresta (1781-1841); Leccionou, no Colégio de São José, Inglês, Chinês, Matemática e Música e era perito em astronomia. Autor de uma Grammatica latina, ad usum sinensium juvenum (Macau, 1828); Arte china…(Macau, 1829), livro didáctico de que Rémusat faz uma elogiosa recensão em 1831 (ver) ; Dicionário português-chinês…(1831); Dicionário chinês-português (1833); Vocabularium latino-sinicum…(Macau, 1837 e 1889); Lexicom manuale latino-sinicum (Macau, 1839; Hokien, 1863; Pequim, 1879); Lexicom magnum latino-sinicum (Macau, 1841 e 1891; Pequim, 1936); Versão do Novo Testamento em língua china e Dicionário sinico-luso (inéditos); e ainda Relação de António China de Macau a Hsei-Chou e outras cidades de Nam-Kim a buscar sementes e plantas de chá, em 1835 e 1836, traduzida e anotada pelo Pe. Gonçalves (cf. Pe. Manuel TEIXEIRA, Vultos marcantes em Macau, p. 107).

Ver obras no googleBooks

6- O manual Língua sínica escripta. Tradução da Amplificação do Santo Decreto  saíra apenas dois anos antes, em 1903. Sobre o significado da publicação deste livro, vide LIU Xiang Bing, «Publicação da Amplificação do Santo Decreto em Macau», e António ARESTA, in prefácio da edição fac-similada publicada pela Fundação de Macau em 1995. Idem para a bibliografia deste sinólogo macaense. [ Ler Pedro Nolasco da Silva  e  "Virtude e sabedoria no IACM por António Aresta in Jornal Tribuna de Macau (2010) ]

7-Joaquim Heliodoro Callado CRESPO, Cousas da China. Costumes e crenças, vol. 1 p. 41.

8- A Revista Lusitana (subtitulada Arquivo de estudos philológicos e etnológicos, relativos a Portugal, dirigida por J. Leite de Vasconcelos), na sua secção bibliográfica do n.º 3 de 1905, anuncia a saída do primeiro volume da Ta-ssi-yang-kuo – e a futura publicação dos vols. II (1900-1901), III (1902) e IV (1903) – e refere que, apesar de se tratar de uma revista «principalmente de caracter histórico […] encerra vários artigos cujos assuntos estão na índole da Revista Lusitana […]» e que «presta portanto muitos subsídios para os estudos de philológica e etnografia» (Revista Lusitana, vol. 8.º, n.º 3, 1905, pp. 233-234).

9 -António Vasconcelos SALDANHA, Estudos sobre as relações luso-chinesas, p. 479.

10- Paulo FRANCHETTI, «Wenceslau de Morais e o exotismo», in O Mestre, p. 470.

11- «Traços da China», crónicas publicadas por Wenceslau de Morais no Correio da Manhã, sob o pseudónimo de A. Silva e reunidas no livro Traços do Extremo Oriente. Siam-China-Japão (1895). Paisagens da China e do Japão, são publicadas em 1901. (2ª edição 1947)

12 «As páginas de Peregrinação são, com efeito, um eco extremamente interessante do espírito que animava então os vários milhares de portugueses que se espalhavam por todo o Oriente e Extremo Oriente, mares e terras; o seu espírito de lucro, de fanatismo, de intolerância religiosa e de todos os desregramentos concomitantes, acompanhados de uma coragem inaudita» (Wenceslau de Morais in Relance da história do Japão (1924), apud Álvaro Manuel MACHADO, O mito do Oriente na literatura portuguesa, pp. 89-90).

13 - A. M. HESPANHA, «Os paradoxos do orientalismo português»: «Do ponto de vista do imaginário português sobre o Oriente, a primeira metade do século XIX apresenta uma pobreza tão espantosa como a que já se verificara no século XVIII, quando “philosophes”, “savants” e artistas manifestavam um profundo interesse pelo Oriente desde o Levante à China. Em Portugal pelo contrário, o panorama cultural, tanto nas artes como nas letras, é totalmente dominado pela Europa. […] Na literatura, o contágio do romantismo europeu podia fazer esperar alguma nota de exotismo oriental. Mas os românticos portugueses procuram o pitoresco não no exotismo, mas nos tipos medievais populares. Até a literatura de viagens se consome em percursos da Europa Ocidental. É preciso esperar por Eça de Queirós, para encontrarmos referências ao Oriente (nomeadamente, em A Relíquia, 1884) mas mesmo essa claramente importada do modismo levantino francês. E pela geração simbolista, para obter uma expressão orientalista forte (mas isolada, Camilo Pessanha, Augusto Osório de Castro, Venceslau de Morais e mais, tarde, Rui Cinnati» (este artigo pode encontrar-se no livro, O orientalismo em Portugal (séculos XVI-XX), ciclo de exposições – Memórias do Oriente (publicado já depois de concluído este meu trabalho).

14 -Este célebre episódio é relatado pelo padre Manuel TEIXEIRA in Vultos marcantes em Macau e pelo médico José Caetano SOARES no seu interessantíssimo livro intitulado Macau e a assistência.

15- António ARESTA, «A sinologia portuguesa», p. 16. [ver também: Os estudos sínicos no panorama da história da eduação em Portugal  in Administração, n.º 38, vol.X, 1997-4.°,1045-1069. ]

16 -José I. de ANDRADE, Cartas escriptas da Índia e da China, vol. I,, p. 281.

17- Cf. Ana Paula LABORINHO, «China: maravilhoso e utopia nos relatos dos viajantes portugueses quinhentistas”, in Ana Margarida FALCÃO et alli, Literatura de viagem, pp. 169-183; e Rui LOUREIRO, Missionários e mandarins. Vide, de Magda van den AKKER, A China de Gaspar, uma sensível biografia romanceada de Gaspar da Cruz.

18- Cf. Ana Paula LABORINHO, ibidem, pp. 169-183.

19 -Pedro da SILVEIRA, «Prefácio», in Francisco M. BORDALO, Sanção na vingança, p. 10.  (Ver aqui )

20 -Editado em Macau, 1980 (IN). Recolha, prefácio e notas de Pedro da Silveira.

21 Cf. René ÉTIEMBLE, «De la sinophilie à la sinophobie».

22 -José I. de ANDRADE, Cartas escriptas da Índia e da China, vol. I, p. 129. (ver aqui tb)

23 - José Ignácio de Andrade, originário da ilha de Santa Maria, Açores, onde nasceu em 1780, foi comerciante de profissão e fez algumas viagens à Índia e China, «em navios que ele próprio comandava» (Innocencio Francisco da SILVA, Diccionario bibliographico portuguez, t. 4, p. 370), regressando a Portugal em 1837. Exerceu o cargo de vereador e de presidente da Câmara de Lisboa.

Sobre as suas cartas, Ricardo P. de MATOS escreve, em 1878, no Manual bibliographico portuguez, que era «obra curiosa e estimada», que a primeira edição de 1843 era «já pouco vulgar», e da segunda, de 1847, já se tinham vendido dois exemplares «um por 2$500, outro por 3$150». A merecidíssima terceira edição data de 1998 (Livros do Oriente).

24- Depois de enumerar algumas das razões que poderiam ser invocadas por Portugal para pedir também indemnizações à China, Caldeira escreve: «Que bons elementos, e outros que talvez me esqueçam, para arranjar uma continha à moda das indemnizações inglesas e americanas, que por triste e passiva experiência já conhecemos. Os Ingleses no ajuste de contas com os Chinas no fim da grande guerra, diz-se que até admitiram nas reclamações particulares uma indemnização a um certo indivíduo, de um bom par de libras, pela perda do seu cãozinho dogue. É certo que a tal conta subiu à bagatela de 26 milhões de patacas, ou uns 70 milhões de cruzados, que os Chinas pagaram pontualmente» (C. José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, p. 177).

25 -Gregório J. RIBEIRO, De Macau a Fuchau, p. 20. Fuchau = Fuchou (também Fou tcheou, Foochow, Fuchow ou Minkow) e Fuzhou (em Pinyin), capital da província marítima meridional do Fujian.
26 -Idem, ibidem, p. 42.
27 -Idem, ibidem, p. 58.

28- Manuel de Castro SAMPAIO, Os chins de Macau, p. VII.
29 -Idem, ibidem, p. 21.
30 -Idem, ibidem, p. 24.

31- Ana Paula LABORINHO, «China: maravilhoso e utopia», p. 175.

32 -José I. de ANDRADE, Cartas escriptas da Índia e da China, vol. II, p. 3.
33 -Idem, ibidem, vol. I, p. 194.

34 -Cf. idem, ibidem, vol. I, p. 24. Data de 1687 a publicação, em Paris, de Confucius Sinarum Philosophus, «the first complete translation into a European language of any of the Confucian classics to be published in Europe and included, the Lunyu (Analects), the Zhongyong (Doctrine of the Mean), and the Daxue (Great Learning)» (Colin MACKERRAS, Western images of China, p. 34). O jesuíta tradutor veicula, tanto na introdução como na própria tradução, certas ideias sobre a moralidade e religiosidade dos chineses que contundem com a ortodoxia católica. Tal se verifica também num outro livro do jesuíta Le Comte, Nouveaux mémoires sur la Chine (1696), e a implicação de uma revelação do divino, «do verdadeiro Deus do céu», independentes da mediação da religião judaico-cristã, farão com que esta última obra seja incluída na lista dos livros que a Faculdade de Teologia da Sorbonne mandou que fossem queimados (ibidem). É o aspecto secular do confucionismo que atrai por exemplo Voltaire, autor citado por J. Ignácio de Andrade. Ver, por exemplo, de MENG Hua, «La vision utopique de Voltaire et la Chine».

35 -«“Early do we see China advancing to the condition in which it is found at this day; for as the contrast between objective existence and subjective freedom of movement in it, is still wanting, every change is excluded, and the fixedness of a character which recurs perpetually, takes the place of what we should call the truly historical. China and India lie, as it were, still outside the World’s History”, Hegel, The Philosophy of History» (apud Colin MACKERRAS, Western images of China, p. 111).

36 -Oliveira MARTINS, As raças humanas e as civilizações primitivas, I, p. 60.

37 -«By Herder China has been called an embalmed mummy, by Hegel a dumb automaton. In view of such associations it is not astonishing that China in the 1830s and 40s easily became a literary symbol of tenacious conservadorism and single minded reaction. Since Hegel had explained China’s condition by a lack of individual freedom, his picture appealed strongly to all liberal writers. By opposing China they could fight political reaction, and specially its most rampant form, the Prussian state» (Ernest ROSE, «China as a symbol of reaction», p. 66).

38 -José I. de ANDRADE, Cartas escriptas da Índia e da China, vol. I, p. 142.

39- Honoré de BALZAC, «La Chine et les chinois»,  In Œuvres diverses. Paris: Librairie Paul Ollendorf, 1908, vol. 2 (1842) p. 192.   [Este texto  foi recentemente reeditado: Honoré de Balzac, Voyage de Paris à Java (1832) suivi d'une lettre de Tristram Nepos, d'une note d'Amédée Pichot et de la Chine et les Chinois (1842). Edition établie, préfacée et annotée par Patrick Maurus. Paris : Actes Sud, « Babel » n° 762, 2006. 173 pages ; Ver nota 2 do capítulo 4 ]

adenda a propósito de La chine et les chinois e desta citação

40 -Colin MACKERRAS, Western images of China, p. 48.

41- Esta revista mensal, publicada entre Maio de 1832 e Agosto de 1852, foi a fonte de A. Marques Pereira para as suas pioneiras Ephemérides comemorativas da história de Macau e das relações da China com os povos cristãos (1868). Vide Pe. Manuel TEIXEIRA, «Os primórdios da imprensa», pp. 47-53.

42 -Francisco M.ª BORDALO, Um passeio de sete mil léguas, p. 143.
43 -Idem, ibidem, p. 134.
44 -Idem, ibidem, p. 135.
45- Idem, ibidem, p. 137.
46- Idem, ibidem, p. 138.
47- Idem, ibidem, p. 148.

48 -«No povo também não há espírito público: pouco lhe importa com os sucessos políticos. Os Ingleses acabavam de bombardear cidades, e imediatamente se viam cercados de vendilhões. […] Os chinas acodem sempre onde haja dinheiro, e esperança de ganho, indiferentes a qualquer outro sentimento de orgulho ou amor nacional» (Carlos José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, pp. 170 e 171).

Do livro de A. WALLEY, The Opium War through chinese eyes (pp. 218-219), transcrevem-se, a propósito deste juízo de Caldeira, e para dar a conhecer a perspectiva chinesa, as seguintes passagens do diário do poeta Chu-Shih-Yun que vivia em Chinkiang, onde os ingleses encontraram uma grande resistência, antes de ocuparem a cidade na sua campanha ao longo do rio Yang-Tze: «“August 28th-1842: The foreigners are selling clothes. These are clothes that they looted. They have put up stalls outside the north gate where they sell very cheap, but will only take foreign dollars in payment; […] September 6th: When foreigners were selling clothes someone tried to pass off on them a copper foreign dollar. They beat him mercilessly. According to one account they cut off his arm before they let him go, saying that he was bereft of all decent feeling. Is it decent feeling, I wonder, that prompts the English to seize other people’s clothing and put it up for sale!”»

49- Esta é uma das ideias que mais se generalizou. Também Eça de Queirós, na sua magnífica crónica escrita em 1894, por ocasião do conflito sino-nipónico, falando sobre a emigração chinesa nos Estados Unidos, relembra a sua experiência de Havana e declara: «De resto como se sabe, a sensibilidade nervosa do chinês é mínima, e por isso eles são quase indiferentes às penalidades usuais do código chinês, a bastonada e a canga. Toda a sua sensibilidade é moral, e assim, na Havana, o castigo terrível e verdadeiramente doloroso que se impõe ao chinês é cortar-lhe o rabicho» (Eça de QUEIRÓS, Chineses e japoneses, p. 62). Que esta suposta insensibilidade à dor por parte dos chineses esteja então eventualmente relacionada com o uso e abuso do ópio é coisa que ninguém na altura parece concluir ou investigar.

50 -Colin MACKERRAS, Western images of China, p. 52.

51 -J. H. Callado CRESPOCousas da China. Costumes e crenças, p. 207. Os considerandos irónicos de Callado Crespo são por vezes enganadores, pois ele fazia um juízo extremamente negativo da China e dos chineses como se pode verificar no seu livro, A China em 1900.

52- Idem, ibidem. Veja-se, sobre este tema, de S. ADAMS, «O lugar da mulher no Ocidente e no Oriente», pp. 53-83. Este número especial (229 pp.) da Revista de Cultura do Instituto Cultural de Macau, inteiramente dedicado à mulher, intitula-se «A mulher em Macau e na China. Condições, vozes e figuras».

53- J. H Callado CRESPO, Cousas da China. Costumes e crenças, p. 79.

54 -C. José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, p. 139.

55- António ARESTA, «A sinologia portuguesa», p. 16.
56 -Idem, ibidem.
57- Idem, ibidem, p. 12.

58 -A sua Arte china (1829), por exemplo, não era apenas «um simples manual de etimologia. Aí se encontram exemplos de estilo literário e vulgar, uma gramática, uma tábua de partículas, 44 diálogos, trechos de história e de mitologia, modelos de peças oficiais, de estilo epistolar e de escrita cursiva, frases selectas em estilo mandarim e cantonense […]», segundo a recensão elogiosa de Abel Rémusat, em 1831, no Journal des Savants (apud António ARESTA, «A sinologia portuguesa», p. 12 ).  Jornal des Savants, pgs. 537 e 543

59- C. José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, p. 3.

60 -O seu primeiro artigo publicado no n.º 4 de 7 de Dezembro de 1850 «versava sobre a fraqueza militar do império chinês, e o modo porque uma nação europeia o pode pôr em contribuição, mesmo nós Portugueses com os pequenos recursos de que poderíamos dispor. Este artigo mereceu alguma atenção em Macau, e mesmo a alguém em Lisboa, pois o vi depois transcrito na Revista Popular. O Friend of China, jornal de Hong Kong, o traduziu e comentou, encarando-o como a revelação das tendências belicosas do governo de Macau contra a China, e a Abelha de Bombaim, copiando o artigo, viu nele laços armados ao governo de Portugal» (C. José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, p. 141). Com efeito, não se pode dizer que Caldeira fosse propriamente diplomata. Iberista convicto, não era sinólogo mas é muito provável que estas ideias – desenvolve no seu livro dois capítulos sobre este tema – se apoiassem nas do seu meio-irmão espanhol, D. Sinibaldo de Mas, esse sim diplomata e sinólogo com obra publicada que viveu em Macau em 1844 e em 1848 (cf. António V. SALDANHA, Estudos sobre as relações luso-chinesas, p. 328).

61 -C. José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, p. 200.
62- Idem, ibidem, p.199.
63 Idem, ibidem.

64 -Luís S. CUNHA citando Joseph Needham no editorial do n.º 21 da Revista de Cultura, número de homenagem aos jesuítas e à sua «política de acomodação cultural» na China. Doa embora aos cristãos que eles tenham então escondido o símbolo máximo da sua religião. Quinet nas suas lições do Collège de France dedicadas aos jesuítas (1843), acusa-os por isso de fraude: «“l’Évangile, porté par un esprit qui lui est opposé, n’a pas voulu croître et fleurir”» (apud René ÉTIEMBLE, «De la sinophilie à la sinophobie», p. 143).
Foram complexas as razões que fizeram com que em 1728 (ano em que na Índia já ardiam autos-de-fé) a religião cristã fosse interdita na China e que todos os missionários fossem expulsos, excepto os de Pequim que se encontravam ao serviço do imperador. Este banimento só foi levantado em 1846 como consequência de imposições (que chegaram a ameaças de guerra) por parte de T. Lagrenne, chefe da embaixada francesa então enviada à China, na altura da ratificação do Tratado de Wangpao (cf. HU Sheng, From the Opium war to the May fourth Movement, p. 85).

65 -Celina Veiga de OLIVEIRA, «A Escola de Língua Sínica», p. 217.

66 -Recorde-se que com a derrota sofrida na Primeira Guerra do Ópio (1839-1842) o governo imperial se vira obrigado a capitular com a Inglaterra e assinar o Tratado de Nanquim em 1842, «[…] o primeiro dos que Chiang-Kai-Shek, no seu livro intitulado “China’s Destiny”, chamou “unequal treaties”» (Eduardo BRAZÃO, Macau-cidade do nome de Deus, p. 116). Seguiram-se tratados com os EUA em 1844 e com a França em 1845. A segunda leva dos tratados desiguais teve lugar durante e após a Segunda Guerra do Ópio e incluiu os tratados de Tianjin em Junho de 1858 e a Convenção de Pequim em Outubro-Novembro de 1860: exigiram-se mais indemnizações, onze outros portos foram abertos, barcos estrangeiros incluindo os de guerra podiam percorrer o rio Changjiang, os estrangeiros podiam viajar por toda a China e para além de outros pontos de âmbito judicial, comercial e religioso, era permitida a emigração dos chineses, e o ópio, que nos tratados dos anos quarenta nem sequer tinha sido mencionado, tornava-se uma mercadoria legal. A civilização ocidental, na sua faceta mais negra, triunfava em toda a força.

67 -C. José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, p. 199.
68 -Idem, ibidem, p. 335.

69 -Este conde Kleczkowski verterá para o francês, em 1876, algumas obras do padre Joaquim Afonso Gonçalves (cf. António ARESTA, «A sinologia portuguesa», p. 13).

70- C. José CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, vol. I, p. 337.

71 -«Kotow ou não-kotow», título de um subcapítulo da obra de Alain PEYREFITTE (O império imóvel, p. 510); o termo kotow designa uma saudação em que se ajoelha e se bate com a cabeça (no caso dos europeus, a aba do chapéu) no chão. Os ingleses sempre se recusaram em fazer o kotow ao imperador ou aos objectos que o representavam e por isso as suas embaixadas foram recam-biadas.

72 -Apud Alain PEYREFITTE, O império imóvel, p. 513.

73 -Vide Martin BOOTH, Opium – A history.

74- Eça de QUEIRÓS, Chineses e japoneses, p. 43.

75- Francisco Maria BORDALO, Um passeio de sete mil léguas, pp. 88-89.
76- Idem, ibidem.

77 Vide António V. SALDANHA, Estudos sobre as relações luso-chinesas.

78 -António Feliciano Marques Pereira (Lisboa, 1839-Bombaim, 1881). Vai para Macau em 1859 onde exerce o cargo de superintendente da emigração chinesa e de procurador dos negócios sínicos (1867). Em 1862 é nomeado secretário da missão diplomática às cortes de Pequim, Sião e Japão. «Foi o primeiro português que estudou a fundo a história de Macau e produziu trabalhos que foram a fonte onde foram beber quase todos os que lhe seguiram» (padre Manuel TEIXEIRA, Vultos marcantes em Macau, p. 129). Destes trabalhos detacam-se As efemérides comemorativas da história de Macau e das relações da China com os povos cristãos (1868). Foi redactor do Boletim do Governo de Macau, e do semanário macaense Ta-ssi-yang-kuo (1863-1866). O filho, João F. Marques Pereira, foi um ilustre continuador da sua obra.  (ver tb. aqui)

79- António V. SALDANHA, Estudos sobre as relações luso-chinesas, p. 304.

80- No entanto a criação efectiva de «“uma escola de habilitação para intérpretes sinólogos e para o estudo da língua sínica escrita e para o dialecto cantonense”, destinada aos funcionários públicos de Macau que pretendam obter a referida habilitação, só será formalmente criada pelo Dec. Orçamental de 22-7-1905, embora seja duvidoso que este decreto tenha produzido resultados palpáveis» (cf. Celina Veiga de OLIVEIRA, «A Escola de Língua Sínica», p. 218). Segundo esta autora, a média de frequência não ultrapassa quatro alunos/ano, excepto em 1927 com sete alunos. Não havendo sequer inscrições entre 1944 e os anos 1970.

Por curiosidade transcreve-se o testemunho de Joaquim Paço d’Arcos quando se interroga sobre o teor da sua colaboração (um conto ‘árabe’ assinado sob o pseudónimo de Jan-al-Kasin) no último número (1921) de A Academia, jornal de estudantes do Liceu, fundado pelos seus irmãos mais velhos: «Que leituras, das que caótica e sofregamente absorvia, me teriam inspirado para saltar de Macau para as cavernas de Thur e colocar na Meca maometana a intriga de mais essa história? A verdade é que em nada o meio chinês, de que tão próximo vivíamos e com o qual contactávamos, parecia influenciar a nossa cultura e interesses. Escrevíamos sobre muita coisa, mas não sobre a China» (Joaquim PAÇO-D’ARCOS, Memórias da minha vida e do meu tempo, p. 275).

81- António ARESTA, «A sinologia portuguesa», p. 15.

82 -M. de Castro SAMPAIO, Os chins de Macau, p. viii.
83 -Idem, ibidem, pp. vii-viii.

84- Conde de Arnoso é o título de Bernardo Pinheiro Correia de Melo, também conhecido por Bernardo Pindela (1855-1911). Publica um volume de contos, Azulejos (1886), prefaciado por Eça de Queirós (a quem oferece o traje de mandarim). António Feijó dedica-lhe o Cancioneiro chinês (1890).  [Ler: 1º Conde de Arnoso]

85 -O general Gordon participara na Segunda Guerra do Ópio, na pilhagem e incêndio do Palácio de Verão em Pequim (1860), e lutara ao lado das tropas imperiais contra os revolucionários Taiping (1850-1866).

86- Conde de ARNOSO, Jornadas pelo mundo, pp. 172-173.
87 -Idem, ibidem, pp. 211-172.
88- Idem, ibidem, p. 215.

89- «Chegámos ao ponto culminante. Para diante e para trás, tanto quanto a vista pode alcançar, sempre a Grande muralha desenrolando-se, descendo, subindo, tão identificada com as montanhas que parece ter nascido das próprias convulsões da terra! Por sobre as nossas cabeças o sol esplende triunfante, fazendo reluzir os cumes afastados cobertos de neve. [...] Ao findar o almoço, de pé e descobertos sobre a Grande muralha – era o dia de anos de Sua Majestade – bebemos respeitosamente à saúde d’El-Rei de Portugal. Com o coração constrangido pela saudade da pátria, tão querida e tão distante [...] Como para baixo todos os santos ajudam foi a pé, cedendo o nosso burro ao tijolo que roubáramos, que seguimos até Nan-Kan, onde chegamos à noite, ao mesmo tempo que uma extensa caravana de ricos senhores mongóis montados em lanzudos camelos» (Conde de ARNOSO, Jornadas pelo mundo, p. 366).
90 -Idem, ibidem, p. 430.

91- Segunda estrofe do «Poéma di Macau: Terra qui nôsse Rê chomá lial / Sêmente unga: sã vôs, bunitéza, /Filo di coraçam di Portugal,/ Alma puro inchido di beléza./ Iou querê vêm contá co sentimento,/ Vôsso estória pa mindo uvi!/ – Qui di péna fino? Qui di talento?/ Ai , qui saiám Camões nom-têm aqui» (Rafael Ávila de AZEVEDO, A influência da cultura portuguesa em Macau, p. 60). Poema do autor.

92 -António ARESTA, «A sinologia portuguesa», p. 16.

93- Vide António Coimbra MARTINS, «O mandarim assassinado», pp. 11-266; e Beatriz BERRINI, «Introdução» à edição crítica de O mandarim.

94 -Como se sabe, Eça de Queirós nunca esteve na China tendo no entanto lidado directamente com a população chinesa emigrante, quando exerceu o cargo de cônsul de 1.ª classe em Havana, de Dezembro de 1872 a Março de 1874. Sobre esta época da vida do escritor veja-se a edição crítica da sua correspondência consular, por Alan FREELAND, Correspondência consular de Eça de Queirós.

95- In Ninette BOOTHROYD e Muriel DÉTRIE (org.), Le voyage en Chine, p. 1105.

96 -Eça de QUEIRÓS, O mandarim, p. 153.

97- Idem, ibidem, p. 127. Esta passagem, aliás, deve ter escapado a B. Berrini quando afirma: «A China de Teodoro, portanto, chega-nos de forma muito restrita, através da voz dessa personagem, que, ao que tudo indica, hauria os seus conhecimentos do Extremo Oriente nas páginas do Diário de Notícias, editado em Lisboa: a sua única fonte de informações sobre a China, segundo o texto. Não tinha curiosidade ou imaginação que o levassem a ampliar os seus conhecimentos, procurando outras fontes, mesmo depois de ter feito tilintar a campainha» (Beatriz BERRINI, «Introdução», pp. 31-32).

98 -Eça de QUEIRÓS, O mandarim, p. 155.
99 -Idem, ibidem, p. 177.

100 -Orlando GROSSEGESSE, «Das leituras do Oriente à aventura da escrita», p. 773.

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