Manuela D. L. Ramos 

4. Das contribuições portuguesas para o Xº Congresso Internacional de Orientalistas a A. Morais Palha e Camilo Pessanha
4.1. “Sociologia Chinesa” ‘made in’ Cantão
4.2. A. Morais Palha e o Esboço crítico sobre a civilização Chinesa
4.3. O fruto podre da civilização chinesa

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4.1. “Sociologia Chinesa” ‘made in’ Cantão

p.94

As contribuições portuguesas enviadas pelo então cônsul de Portugal em Cantão, Demétrio Cinatti, para o malogrado X Congresso Internacional dos Orientalistas (1), que deveria ter-se realizado em Lisboa em 1892, foram publicadas em dois opúsculos sob o título genérico de Sociologia chinesa, e a respectiva especificação sugestiva de «Autoplastia – Transformação do homem em animal, estiolamento e atrofia humana, casos de tetaratologia»  e «O homem como medicamento – Superstições médicas e religiosas que vitimam o homem, afinidades destas crenças com as crises antieuropeias de 1891». Tal e qual.
Estas notas de “sociologia chinesa” enviadas para o congresso dos orientalistas interessam-nos agora, muito mais pelo que nos dizem sobre Cinatti e o cariz dos seus interesses e preocupações da altura, do que sobre as práticas primitivas dos chineses. A tónica extremamente negativa do tema, preferido a todos os outros possíveis, a autoria das notas originais, devidas a um missionário protestante, leva-nos a relembrar a opinião hoje corrente sobre o protagonismo destes agentes do cristianismo na veiculação de imagens negativas da China e dos chineses para a Europa, durante o século XIX, assunto, aliás, já anteriormente abordado.

As notas de Sociologia chinesa – traduções de artigos publicados na China em jornais de língua inglesa por um tal Dr. Macgowan (1814-1893), médico missionário americano – são comentadas por João de Deus Ramos que, para caracterizar o degradado ambiente dessa China finissecular (o que justificaria em parte a sua escolha por D. Cinatti), transcreve muito apropriadamente uma passagem do conhecido prefácio de Camilo Pessanha ao pequeno livro de Morais Palha, Esboço crítico da civilização chinesa (1912), que o poeta apelida de “interessante opúsculo”. Todavia, a escolha pode ser problematizada, se não a encararmos como uma amostra da realidade chinesa, mais ou menos verídica, mas antes como um exemplo flagrante do modo redutor como os europeus viam a China e as coisas chinesas. E isto independente e dependentemente (como se perceberá pelas citações) do facto da maior visibilidade da decadência, e do declínio da dinastia Qing, ser na área costeira do Sul da China, a sua “écorce meurtrie” como a designará Segalen, e principalmente Cantão, a zona aliás onde há mais tempo se sentia – ó contradição – a influência do Ocidente.
A este propósito parece-me oportuno citar Balzac que, já em 1842, escrevia:

«Qui n’a pas entendu dire qu’en Chine on jetait parfois les enfants à l’eau, comme ici l’on donne des boulettes aux chiens pendant la canicule? Défions-nous beaucoup des voyageurs de l’école de celui qui, voyant à Blois une fille rousse, écrivit que toutes les femmes du Blésois étaient ainsi. […] Je crois que la Chine est particulièrement victime des gens qui prétendent y être allés et qui sont restés tout bonnement à Canton sur le territoire abandonné au commerce, ou à Macao, ville moitié portugaise, moitié chinoise.» (2)

Também Carlos José Caldeira escreveu em 1852:

«O povo de Cantão é geralmente reputado o de pior índole da China, e o mais contrário aos Europeus: os próprios Chinas inteligentes concordam em que o luxo, as dissipações, e os crimes existem aqui em maior escala do que em nenhuma outra parte do império, mas asseguram ao mesmo tempo que há a par disto mais espírito empreendedor, vistas mais extensas, e conhecimentos mais gerais entre as classes dos habitantes de Cantão, do que em qualquer outra parte do país.» (3)

E Eça de Queirós em 1894, ou seja, dois anos depois do malogrado X Congresso Internacional dos Orientalistas, explica do mesmo modo a proliferação das imagens negativas sobre os chineses: os europeus não conhecem a verdadeira China, limitados que estão a um contacto periférico. Salvo raríssimas excepções, o ocidental confinado às concessões desconhece o interior desse enorme império, ignora o interior das cidades, o interior das casas e das famílias:

«[…] Mas estes europeus, verdadeiramente, da China só conhecem a orla marítima, os portos abertos ao comércio europeu, as “concessões”, Hong-Kong e Xangai. E nestes portos só conhecem materialmente aquela populaça chinesa, iletrada e grosseira, que se emprega nos misteres inferiores de barqueiro, carregador, criado, moço de fretes, vendedor ambulante, etc. Ora, avaliar por esta baixa matula toda a sociedade chinesa, é como julgar a França pelos maltrapilhos que fervilham nos cais de Marselha, ou criticar o Brasil, e a sua educação, e a sua cultura, e a sua força social, pela gente baixa que carrega e descarrega fardos dos trapiches para os armazéns.
Viajantes que se tenham alongado para o centro da China, e observado alguns modos e costumes das classes cultas, e espreitado aqui e além, através das fendas de portas, um pouco da vida íntima, da família, das ideias, das crenças, podem ser contados pelas pontas dos dedos. Os próprios residentes estrangeiros de Pequim, formando o pessoal das legações, não penetram na sociedade chinesa, vivem enclausurados dentro dos muros das residências, como os antigos judeus nos ghettos, e só se familiarizam com os aspectos externos, ruas, lojas, frontarias de templos, perpassar das multidões […].» (4)

O conde de Arnoso, nas suas Jornadas pelo mundo (1898), conta que quando visitou Eça de Queirós em Bristol, em 1897, o escritor lhe perguntara qual a impressão com que ficara de Pequim. Eis a resposta:

«– Londres faz-me o efeito dum nababo vestido de brocado e ouro, recebendo com luzidia pompa num palácio deslumbrante e maravilhoso, mas não deixando sair os seus convivas sem primeiro lhes mostrar as chagas pustulosas que lhe corroem o corpo.
Pequim é exactamente o contrário; o nababo, aqui, guarda e esconde como um avaro os seus preciosos tesouros, deixando apenas ao bárbaro estrangeiro o horripilante quadro da negra miséria que o envolve. São raríssimos os monumentos que ao estrangeiro é permitido visitar […].» (5) Fonte da imagem

Eça de Queirós também relata a história de um secretário da Legação inglesa, o único que então «tinha aprofundado a China»: aprendera o chinês, «não só o idioma popular, mas linguagem mandarínica e clássica», convivera com as famílias nobres de Pequim, usava rabicho e manejava o leque «mas tornado chinês e portanto discreto não escreveu as suas impressões – e morreu» . (6)

4.2. A. Morais Palha e o Esboço crítico sobre a civilização Chinesa

p.96

Escassa discrição e muita arrogância caracterizam o Esboço crítico sobre a civilização chinesa de J. A. Filipe de Morais Palha (7), publicado em 1912. Nas páginas introdutórias ao seu opúsculo, explica ter sido uma conferência de Camilo Pessanha sobre «A arte chinesa» (1909) que o inspirara a debruçar-se sobre os assuntos chineses. Como médico encarara a possibilidade de escrever sobre a «extravagante medicina chinesa com que o médico ortodoxo a cada passo tropeça no Extremo Oriente» (8), mas como um assunto de tal natureza implicava que se tratasse preliminarmente do «estado da evolução da sociedade», optara por outro caminho. Assim nasceu o esboço civilizacional que Pessanha prefacia e constituiria o prólogo que o pretendido estudo sobre a medicina oriental deveria comportar.

Morais Palha, «obreiro embora modesto e obscuro, do positivismo», segundo as suas próprias palavras, declara logo que é diminuto o seu saber sobre a civilização chinesa, considerando todavia que esses «pouquíssimos conhecimentos de touriste», aliados à vivência das «manifestações quotidianas dessa enorme massa de população», haviam sido suficientes para o «cumprimento do modesto fim a que se destinavam» (9). Termina as páginas introdutórias assinalando «um acontecimento imprevisto e extraordinário»: a implantação da República Chinesa graças a um grupo de «indivíduos com ideais heterogéneos, ligados unicamente pelo desejo comum de expulsarem a dinastia tártara» (10). Dadas essas circunstâncias, o seu «folheto foi para o cesto da velharia ainda mesmo antes de sair à luz do dia», pois «a China de hoje não é a China de ontem» , devido a terem-se rompido «as poderosas cadeias que a traziam fora do progresso universal» (11).

O que é um facto é que apesar de ter passado pelo “cesto da velharia”, Camilo Pessanha entendeu prefaciar e Morais Palha publicar.

O Esboço crítico divide-se em duas partes: na primeira, intitulada «Traços da civilização antiga» , são enunciadas as ‘fórmulas’ que resumem a civilização milenar chinesa expressas num certo tom de apreço que muda radicalmente na segunda parte, intitulada «Decadência gradual da civilização e dos costumes». Aqui o autor alonga-se na descrição das “superstições” relacionadas com os cultos resultantes da mistura indiscriminada do taoísmo, budismo e confucionismo; de outras práticas “supersticiosas” , como a geomância, que “enredam” a vida dos chineses; dos seus hábitos promíscuos, da sua imundície etc., etc.

Na transcrição que se segue, encontra-se resumido o diagnóstico sobre o estado do organismo social que atingira o “período apopléctico”, e delineadas as características físicas e morais do tipo mongolóide. As suas palavras chegam aos nossos ouvidos como um eco de Oliveira Martins, sem “a magia da sua forma literária” e com umas certas tonalidades hipocráticas, ou melhor, nosográficas…:

«A psicologia chinesa, vazada em moldes de uma metafísica e de uma moral tão maleáveis, sofreu evidentemente lastimosa decomposição.
O organismo social, como que realmente invadido pela paralisia geral progressiva, atingiu o período apopléctico, mostrando-se indiferente e apático por todos os ideais que caracterizam a nobreza de sentimentos.
O tipo mongólico, baixo, anguloso, pesado, com tendência para obeso, braquiocéfalo, prógnata, com malares salientes, nariz chato e largo, olhos pequenos, amendóides e vesgos, oblíquos para fora e para cima, como que se adaptou e fundiu com o tipo de carácter moral mesquinho.» (12)

Para concluir a apresentação desta peça ‘científica’, que Pessanha não só elogiou, como também ampliou, transformou, exemplificou, não resisto a transcrever outro excerto em que são diagnosticadas as causas da lamentável perversão em que se encontrava a terça parte da humanidade. Entre outras, saliente-se a falta do «impulso positivo das doutrinas de Descartes, Bacon e Voltaire»:

«Ora a civilização chinesa, nascida sem esforço, sob os auspícios do bem-estar moral e material do povo, sob os subtis fumos da suprema bem-aventurança – irmã gémea do nirvana indiano – caracterizou-se desde o berço pela superficialidade e transcendência das ideias. Sem apoio em bases de real importância, sem o impulso positivo das doutrinas de Descartes, Bacon e Voltaire, caminhando de abstracção em abstracção, encontrou ela no vácuo da sua própria constituição os fundamentos da sua desorganização. As qualidades morais do povo, seguindo passo a passo a trajectória da civilização, recuaram do ideal e do abstracto altruísmo em que se haviam embrenhado nos fabulosos tempos do imperador Yao, e apropriaram-se do mais feroz egoísmo e da mais lamentável perversão, em que se encontram actualmente.» (13)

4.3. O fruto podre da civilização chinesa

p.98

Em 1911, ano anterior à publicação do texto de Morais Palha, Victor Segalen, o actualmente tão aclamado teorizador de uma estética do exótico (14), escrevera de Tien-Tsin a um amigo:

«Je reste violemment nostalgique de Pékin. Crois-moi: méprise la côte. Oublie Shangai et les ports du bas fleuve. La lisière de la Chine est “avancée” comme une écorce meurtrie. Dedans, la pulpe est encore savoureuse.» (15)

No seu texto sobre a civilização chinesa, que prefacia o opúsculo de Morais Palha, Camilo Pessanha apenas nos descreve esta casca pisada, podre… da China. Só mais tarde, nos textos datados de 1914 e 1915 sobre literatura chinesa (16), mostrará quanto saboreia e aprecia a polpa do fruto do conhecimento chinês.

Debrucemo-nos de momento sobre a já referida passagem do prefácio com que Pessanha honrou o Esboço da civilização chinesa de Morais Palha, e onde se interroga sobre o extremo estado de decomposição e degeneração da raça chinesa num acesso característico de sinédoque civilizacional.

Num percurso que faz por Cantão e já de volta à amena e civilizada concessão europeia, «a restinga silenciosa de Shameen, ajardinada e sombreada de banians» (17), depois de descrever uma ida ao execution ground, e de cruzar um grupo em que se procedia a «uma trivial condenação de açoites», levado na sua cadeirinha, o poeta, literalmente au dessus de la melêe, confessa

«[…] a ilusão de que a confusa multidão por entre a qual acabo de passar é toda ela um enxurro homogéneo de imundície, como esses canais infectos como esgotos mas navegados de barcos do vizinho bairro de Honam – a Veneza cloacina do Extremo Oriente – correndo entre monturos e o tardoz de pardieiros arruinados e imundos […].»(18)

Em seguida, interroga-se:

«Terá com efeito de ser assim? Nação e raça encontrar-se-ão no extremo estado de decomposição, vasto podredoiro operando de modo lento mas seguro a sua transformação – o próprio aniquilamento –, incessantemente laborado por tantos agentes de destruição implacáveis – a preguiça, a ignorância, o egoísmo, a covardia, a crápula, a injustiça e a venalidade dos magistrados, a intriga e a cupidez dos eunucos, e a ignorância e imbecilidade estupenda dos governantes – isolados de toda a contemporânea civilização no seu delírio arqueológico de grandezas e cultivando, no convívio de um mundo de espectros, a logomaquia inane e a complicada e esotérica hieroglifia da sua morta literatura.»  (19)

A cidade utópica dos nossos navegantes de outrora, a urbe «onde se evidenciam os princípios da ordem, regularidade e organização» (20), transformou-se na cidade cloaca, sorvedouro imparável desse “enxurro homogéneo de imundície” que é a imagem da própria raça e nação chinesas.
É uma história interminável: eis de novo retraçadas pela pena de Pessanha as pretensas características da raça “china” . A enumeração das qualidades negativas atravessa todo o seu texto como um padrão já delineado na trama. Repetidamente, em descrições que atingem de cada vez níveis paroxísticos que se julgam inultrapassáveis, é desfiado o rosário da degenerescência da raça:

«Os mesmos horrores que o Sr. Dr. Palha descreve […] tenho-os eu visto, desfilando em contínuo e tumultuário cortejo pela teia do tribunal. […]
A disformidade, a monstruosidade, o raquitismo, o nanismo, o cretinismo… a tuberculose, a sífilis, a histeria, a epilepsia, a coreia, a lepra, a sarna… A prostituição, o deboche, a pederastia, o sadismo… A preguiça, o parasitismo, a mendicidade, a vagabundagem, o jogo, o lenocínio, a escravatura… A fraude, a chantagem, o furto, o roubo, o banditismo, a pirataria, o cativeiro… E de tudo isto todos os dias […] montão de lixo constituído pelos mais asquerosos detritos, caudal de esgoto arrastando assim as irreconhecíveis escórias humanas. Ignorância, boçalidade, superstição, des-lealdade, covardia, avareza, sensualidade, crueldade, desfaçatez, cinismo, atonia moral… E coexistindo com estas qualidades morais negativas, a agravar-lhe o efeito pelo imprevisto dos contrastes e pelo disparatado das situações, a inextricável trama de preconceitos, de fórmulas, de convenções que o opúsculo do Sr. Dr. Palha minuciosamente analisa […]». (21)

«Bem sei que esta emaranhada flora do mal não tem o seu habitat exclusivo na parte extremo oriental da Ásia […] Nunca porém, talvez em nenhuma parte do mundo, essa vegetação monstruosa se ostentou tão exuberantemente em um alfobre tão basto e desabrochando em uma tão opulenta floração.» (22)

Neste tipo de textos, género esboços civilizacionais, fala-se essencialmente de raça, povo, gente, ralé, multidão, turba, etc., e Camilo Pessanha utiliza um ainda maior número de vocábulos similares. Não é só a generalização negativa que perturba, é sobretudo a evidência de uma profunda incapacidade de se pôr no lugar do outro civilizacional: o ponto de vista desmesuradamente eurocêntrico, a total ausência de uma apreciação crítica em relação à actuação do ocidental. Pelo que se sabe da sua isenção e capacidade como professor e como jurista, pelo que a magia da sua forma literária deixa vislumbrar sobre aquilo que poderia ter escrito, são amarga e escandalosamente minguados os comentários irónicos sobre o «repartir do bolo», na sua apreciação acerca da guerra sino-japonesa, e a vitória do Japão, uma imagem cuja ilustração caricatural foi então mediatizada (23). É sempre a «ralé ignara» china que, de modo infame e traiçoeiro, engana o diabo ocidental:

«Milionários ou indigentes, letrados ou analfabetos, poderosos ou oprimidos, todos os Chinas se parecem nos processos paradoxais da sua inteligência, na desproporção entre a sua sensibilidade estética e a sua afectividade moral como se parecem no aspecto dois grãos da mesma qualidade de arroz. Todos têm a mesma indiferença sem entranhas pelo sofrimento alheio, todos praticam o squeeze, todos acreditam com igual cegueira nas influências misteriosas e absurdas do fong-soi, todos atraiçoam a palavra empenhada recorrendo aos mesmos sofismas grosseiros […] É lerem-se, por exemplo, as negociações prévias de todos os tratados – negociações às quais, por via de regra, só a ameaça dos couraçados são capazes de pôr um termo […].» (24)

O próprio Pessanha declara no início do seu prefácio ser infundada a ideia de que ele é admirador do povo chinês, e realmente basta a leitura deste texto, que Gil de Carvalho julga «ainda hoje intraduzível para o chinês» (25), para nos desiludirmos. Com efeito, a turbulência da enxurrada aviltante que solta contra os “chinas” , faz com que passem despercebidas as reduzidíssimas apreciações relativamente a certos aspectos do seu carácter e da sua cultura. Para além do efeito positivo ser minorado pelo facto de partir sistematicamente de um pressuposto desfavorável, como por exemplo, quando «em menos melancólica disposição», comenta, ao observar nas ruelas a interminável faina da população,

«[…] quanto toda essa gente, em compensação das tristes qualidades negativas do seu carácter, é sóbria, económica, sofredora, pacífica, respeitadora das leis e obediente à autoridade, persistente nos seus projectos e infatigável no trabalho, vencendo as mais descoroçoadas dificuldades à custa da paciência, de tenacidade e de esforço […].» (26)

Só a sua rara poesia o redime. Poesia «que é para nós um quase nada pouco para tanto sofrimento»(27). E é nela, mais uma vez, que Pessanha se transforma, e se identifica humanamente com o outro, vil e mesquinho mas sofredor:

«[…] A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror…
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor.
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó ceus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas![…]» (28)

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Notas ao Capítulo 4:

1– Sobre este malogrado X Congresso dos Orientalistas (a sua preparação, a lista dos participantes, as suas contribuições, etc.) veja-se de J. de Deus RAMOS os artigos publicados no Boletim Eclesiástico de Macau entre 1986 e 1990, posteriormente reunidos in Estudos luso-orientais, 1996.

2Honoré de BALZAC, «La Chine et les chinois», p. 187.  [Adenda, julho 2012:  ler esta citação aqui, e outras deste texto de Balzac, que é a reunião de quatro artigos publicados originalmente  em outubro de 1842:  «L’extrait provient de La Chine et les Chinois (pp. 107-171) qui est la réunion de quatre articles parus entre le 14 et le 18 octobre 1842 dans les numéros 80 à 84 de La législature, journal des deux chambres, politique, commercial, industriel et littéraire créé en 1842 et dont la publication s’interrompit en décembre 1843. Comme l’indique P. Maurus, ce texte est « la longue critique descriptive » de La Chine et les Chinois, dessins exécutés d’après nature par Auguste Borget et lithographies à deux teintes par Eugène Ciceri auquel est associé un texte titré Explication des dessins qui sont en fait des Fragments de Lettres inédites de l’Auteur [Auguste Borget] depuis le jeudi 9 août 1838 jusqu’au 3 octobre de la même année.»;  ver também nota 39 do Capítulo 2 ]

3Carlos J. CALDEIRA, Apontamentos d’uma viagem à China, p. 139.

4Eça de QUEIRÓS, Chineses e japoneses, pp. 38-39.

5Conde de ARNOSO, Jornadas pelo mundo, p. 192.

6Eça de QUEIRÓS, Chineses e japoneses, p. 40. Certo para a discrição e segredo, errado para o não registar das impressões pois o verdadeiro letrado tinha por obrigação o cultivo da escrita.
É graças a essa tradição que, por exemplo, Walley pôde publicar The Opium War through chinese eyes (1958), obra constituída por excertos de diários de letrados chineses da época da I Guerra do Ópio.

7J. António Filipe de Morais PALHA, «médico-cirurgião pela Escola de Lisboa… Facultativo de 1.ª classe do Ultramar», como se lê na capa de uma sua outra publicação, Contribuição para o estudo da nosografia de Timor, publicada em Macau, em 1909.

8– Idem, Esboço crítico da civilização chinesa, p. II.
9– Idem, ibidem, p. III.
10– Idem, ibidem, p. III.
11– Idem, ibidem, p. V.
12– Idem, ibidem, p. 40.
13– Idem, ibidem, p. 47.

14Victor Segalen (1878-1919), médico-major e escritor. Autor de Les immémoriaux (1907), dos livros de poemas Stèles (1912), Peintures (1916), René Leys (1921) e L’équipée. Voyage au pays du réel (1929), publicados postumamente. Este sinófilo vive na China em 1909-1914 e 1917-1918.  (ver “biographie“) Em 1944 foi ‘redescoberto’ e o seu caderno de notas sobre o exotismo publicado pouco depois na revista Mercure de France, onde aliás já tinha colaborado (J. C. Seabra PEREIRA, Decadentismo e simbolismo na poesia portuguesa, p. 88, cita um seu artigo, «Les synesthésies à l’époque symboliste», publicado em 1902, no n.º 148 dessa revista). Em 1978 é finalmente dado a público o Essai sur l’exotisme. Une esthétique du divers.

15Victor SEGALEN, Essai sur l’exotisme, p. 52.

16- «Literatura chinesa», texto que acompanha a publicação das suas traduções de quatro elegias chinesas, no jornal macaense O Progresso, em 13 de Setembro de 1914 (as outras quatro foram publicadas em 20 de Setembro e 4 e 18 de Outubro desse mesmo ano); «Relato da conferência sobre literatura chinesa», publicado no mesmo jornal em 21 de Março de 1915.

17Camilo PESSANHA, «Prefácio ao livro Esboço crítico da civilização chinesa», p. 147.
18– Idem, ibidem, p.147.
19– Idem, ibidem, p. 148.

20Ana Paula LABORINHO, «China: maravilhoso e utopia nos relatos dos viajantes portugueses quinhentistas», in FALCÃO et al., Literatura de viagem, p. 176; ver também Maria Leonor BUESCU, «Uma visão quinhentista de Pequim».

21Camilo PESSANHA, «Prefácio ao livro Esboço crítico da civilização chinesa», pp. 124-125.
22– Idem, ibidem, p. 125.
23– Idem, ibidem, pp. 134-135.
24- Idem, ibidem, p. 129.

25Gil de CARVALHO, «Pessanha. De um caderno chinês». Em «Duas histórias da China», este autor faz uma interessante abordagem comparatista deste texto de Pessanha confrontando-o com a prosa do fundador da literatura moderna da China, Lu Xun (1881-1938) nas suas duas novelas – Diário de um louco (1918) e A verdadeira história de Ah Q (1921).

26Camilo PESSANHA, «Prefácio ao livro Esboço crítico da civilização chinesa», p. 148.

27Gil de CARVALHO, «Pessanha. De um caderno chinês», p. 105.

28– «Branco e vermelho», in Clepsidra, p. 134 (ver transcrição integral in Apêndice).

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