Manuela Delgado Leão Ramos

Orientalismo não é um termo unívoco e desde o seu aparecimento no vocabulário ocidental tem-se referido a aspectos assaz diversos do modo como o Ocidente se interessou, estudou, aproveitou, inspirou em e lidou com o Oriente. No século XX, o seu leque semântico tem continuado a alargar-se com a contribuição de toda uma produção crítica sobre o tema, que terá sido inaugurada por Victor Segalen.

Raymond Schwab faculta-nos uma visão positiva da história do orientalismo, encarado como impulsionador de todo um movimento de renovação do pensamento ocidental.

O lado negativo é-nos desvendado pela perspectiva de Edward Said. O aspecto mais desenvolvido por este autor tem a ver com a problemática complexa da criação de um campo de saber sobre as outras culturas, nomeadamente as orientais. Argumenta Said que os modos e as motivações desse saber nunca são inocentes, e na sua argumentação é realçada a instrumentalidade dos discursos orientalistas, produzidos e reproduzidos institucional e culturalmente no contexto específico das relações coloniais entre o Ocidente dominante e o Oriente dominado.

Viu-se como essa grelha interpretativa pareceu adequada, por exemplo, nos casos portugueses de Oliveira Martins e Vasconcelos Abreu, e antes e depois deles, dos viajantes pró-coloniais e do sinólogo oficial Marques Pereira.

Viu-se também que tal grelha pode tornar-se extremamente simplista e que, para além de não levar em linha de conta a especificidade das situações orientalistas, não prevê teoricamente, ou antes – como parece ter acontecido no caso do Orientalism de Said, oblitera as vozes contra-hegemónicas de que são exemplo Wenceslau de Morais e Eça de Queirós.

Para além disso é desadequada por ser limitativa, no caso de manifestações artísticas e críticas que se inspiram ou foram influenciadas (directa ou indirectamente) pela arte da escrita poética chinesa, onde o orientalismo se torna uma via de descoberta.

Posteriormente, e insurgindo-se contra a carga extrema de conotação negativa que a palavra adquiriu através de Said, carga essa que de certo modo oblitera os aspectos positivos de algumas obras que se podem apelidar de orientalistas, e conduz a leituras redutoras das mesmas, o historiador MacKenzie propõe um alargamento semântico do termo.

As manifestações de cariz orientalista são múltiplas e as grelhas de leitura dessas manifestações também não podem ser únicas. É o que se pode verificar no caso do orientalismo português.

A minha contribuição para o estudo da obra de Camilo Pessanha procurou destacar o carácter multifacetado do seu orientalismo. Pode ser considerado o representante mais completo do orientalismo português. Produziu textos de cariz orientalista, na acepção saidiana do termo, em que veiculou uma imagem extremamente generalizada, redutora e negativa do ‘carácter’ chinês, da civilização chinesa, com uma reduzidíssima capacidade de análise do papel ocidental nesse “vasto podredoiro”.
Por outro lado, a sua reflexão aprofundada sobre a peculiaridade da poesia e da escrita chinesas fazem dele um dos mais interessantes intérpretes do orientalismo na sua faceta positiva, ou seja, como veículo de uma viagem transformadora ao estranho e não familiar. Tal como a sua excelência de poeta, e a sua utilização de processos poéticos afins aos da escrita poética chinesa, na esteira dos seus pares europeus.

O orientalismo de António Feijó é de diverso teor. Nele não se encontra nenhum tipo de orientalismo negativo de tipo saidiano. O seu Cancioneiro chinês, de modo tão profissionalmente poético, é o exemplo português mais completo do que MacKenzie apelida de progressão orientalista: influência positiva e libertadora em algumas obras dos artistas ocidentais, dos motivos, temas e imagens da arte oriental.

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Adenda:

Em 2002 – aceitando a proposta da então directora da Revista Colóquio-Letras escrevi um texto intitulado “Orientalismo de Camilo Pessanha” em que abordo alguns aspectos que neste livro não foram contemplados, completanto de certo modo o meu trabalho. O artigo deveria ser publicado num número inteiramente dedicado a Pessanha, creio, e de acordo com o que me foi dito.

Os anos entretanto foram passando e o artigo nunca foi publicado.