Manuela D. L. Ramos

8.1. Camilo Pessanha: “Branco e Vermelho” [ Transcrição do poema «Branco e vermelho» abordado no capítulo 5. Camilo Pessanha, orientalizado e «dilletanti da sinologia» , no ponto 5.3.1 ]
8.2. António Feijó: Cancioneiro Chinês vs. Livre de Jade

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8.1. Camilo Pessanha

«Branco e vermelho»A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso…
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso…
Que delícia sem fim!

Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

Na areia imensa e plana,
Ao longe, a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte,
Da enorme dor humana…
Da insigne dor humana…
A inútil dor humana!

Marcha curvada a fronte.

Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados
No poente recortados
Em negro recortados,

Magros, mesquinhos, vis.

A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem
Pavidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror…
Até que enfim desmaiem,

Por uma vez desmaiem!
Ei- los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor…

E ali fiquem serenos,
De costas e sereno.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas fontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento,

Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa…
Tudo vermelho em flor

Poema publicado pela primeira vez na Ideia Nova (Macau, 18/3/1929, n.º 13); integra, a partir de 1969, a nova edição dos poemas de Camilo Pessanha, Clepsidra e Outros Poemas. (Cf. Clepsydra, 1995, edição crítica de Paulo FRANCHETTI, pp.133-135)
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8.2. António Feijó: Cancioneiro Chinês vs. Livre de Jade

Título dos poemas do Cancioneiro chinês e do Livre de jade

Pórtico de Li-tai-Pé

PRIMAVERA
P 1 A folha de salgueiro (Tchan-Tiu-Lin)-A 28 La feuille de Saule
P 2 A sombra da laranjeira (Tin-Tun-Ling)- A 39 L’ombre des feuilles d’oranger
P 3 Diante do espelho (Tan-Jo-Su) -L 8 Une femme devant le miroir
P 4 A flor de pessegueiro (Tsé-Tié= desc.) -A 26 La fleur de pêcher
P 5 O mau caminho (Tsé-Tié= desc.)-A 25 Le mauvais chemin
P 6 As pérolas de jade (Tchan-Tiu-Lin) -A 29 Les perles de jade
P 7 A uma mulher formosa (TchéTsi/Ouan Tsi)- A 22 A la plus belle femme du bâteau des fleurs
P 8 Navio distante (Su-Tong-Po)- A 24 Sur les balancements d’un navire
P 9 Na foz do rio (Tan-Jo-Su)- L 2 Près de l’embouchûre du fleuve
P 10 A flauta misteriosa (Li-tai-Pé)- P 2 La flûte mystérieuse
P 11 O Pescador (Li-tai-Pé)- A 11 Le pêcheur
P 12 Indo para Tchi-Li (Tsé-Tsi / Tin-tun-Ling)- Vo 6 En allant à Tchi-Li

ESTIO
E 1 O leque (Tan-Jo-Su)- A 21 L’éventail
E 2 O imperador (Thu-Fu)- A 17 L’Empéreur
E 3 A escadaria de jade (Li-tai-Pé)- L 1 L’Escalier de Jade
E 4 À sombra das árvores (Uan-Tchan-Lin)- Au 9 Par un temps tiède
E 5 Os sábios dançam (Li-Tai-Pé)- P 1 Les Sages dansent
E 6 A flor vermelha (Li-Tai-Pé)- G 2 La fleur rouge
E 7 Olhando a lua (Tan-Jo-Su)- L 4 Un Poète regarde la lune
E 8 O adeus (Roa-Li / Li Oey)- G 8 Les Adieux
E 9 Luar nas águas (Li-Su-Tchon/ Li Oey)- L 9 Le Clair de lune dans la mer
E 10 Pensando nela (Sao-Nan)- A-2o Un jeune Poète pense à sa bien-aimée
E 11 Sobre o Rio Tchú (Thu-Fu)- A 15 Sur le fleuve Tchou
E 12 A rir da natureza (Uan-Tié/Ouan-Tsi)-P 7 Un Poète rit dans son bateau

OUTONO
O 1 Pensamentos do outono (Thu-Fu)- O 2 Pensées d’automne
O 2 Casa no coração (Thu-Fu)- A 16 La Maison dans le cœur
O 3 Flauta do outono (Thu-Fu)- O 3 La Flûte d’automne
O 4 Passeio no campo (Thu-Fu)- L 3 Promenade le soir dans la prairie
O 5 A folha na água (Tché-Tsi/Ouan-Tsi)- A 23 La Feuille sur l’eau
O 6 O pavilhão de porcelana (Li-Tai-Pé)- Vi 1 Le Pavillon de porcelaine
O 7 Canção no rio (Li-Tai-Pé)- Vi 3 Chanson sur le fleuve
O 8 O batel das flores (Thu-Fu)- P 6 Le Bâteau des fleurs
O 9 No meio do rio (Tchan-Ui/Tchang-Tsi)- Vi 4 Au milieu du fleuve
O 10 Canto das aves, à tarde (Li-Tai-Pé)- A 9 Chant des oiseaux, le soir
O 11 Da janela ocidental (Uan-Tchan-Ling)- G 6 De la fenêtre occidentale
O 12 O cão do vencedor (Thu-Fu /desc. )- G 5 Le Chien du vainqueur

INVERNO
I 1 A folha branca (Tché-Tsi/Tchang-Tsi)- P 13 La Feuille blanche
I 2 O albergue (Li-tai-Pé)- Vo 2 L’Auberge
I 3 O exilado (Su-Tong-Po)- Vo 3 L’Éxilé
I 4 Os cabelos brancos (Tin-Tun-Ling)- Au 13 Les Cheveux blancs
I 5 Tristezas do lavrador (Su-Tong-Po)- Au 14- Tristesses du Laboureur
I 6 Bebendo em casa de Thu-Fu (Tsui-TchéTsi/ Tsoui-Tsong-Tché)- Vi-6 En buvant dans la maison de Thu
I 7 As mulheres do mandarim (Sao-Nam)- Vi 8 Les trois Femmes du Mandarin
I 8 Esposa honesta (Tchang-Tsi)- A 19 L’Épouse vertueuse
I 9 Coração triste, falando ao sol (Thu-Fu)- Au 12 Le Cœur triste au soleil
I 10 As flores e os pinheiros (Tin-Tun-Ling)- Au 15 Les petites fleurs se moquent des graves sapins
I 11 O pavilhão do rei (Uang-Pó/Ouan-Po)- Au 6 Le Pavillon du jeune roi
I 12 O cormoran (Su-Tong-Po)- Au 8 Le Cormoran