Manuela D L Ramos

Orientalismo?
Serão a falta de cultura orientalista e o quase vazio institucional existente nesta área de estudos resultado de uma ausência de documentos e de investigações? Ou antes, e caracteristicamente, falta de publicidade?
Que tradição orientalista temos em Portugal?
Houve estudos orientalistas?
Sinologia portuguesa?

Estas questões começaram a impor-se logo no início da minha investigação e concluí imediatamente que não poderia, nem tão-pouco interessava, abordar os aspectos orientalistas das obras de António Feijó e de Camilo Pessanha, sem inquirir sobre a tradição orientalista, na sua vertente sinológica, em Portugal e Macau, e sem a contextualizar no campo mais vasto da tradição orientalista europeia. Tradição essa, aliás, de que actualmente faz parte a própria reflexão teórica sobre a história do orientalismo.

Foi justamente por aí que iniciei a minha viagem inquiridora, viagem que me reconduziu a Camilo Pessanha e a António Feijó e que me permitiu uma melhor compreensão dos aspectos orientalistas das suas obras.

Segue-se um breve resumo dos assuntos tratados em cada capítulo.

1-De Raymond Schwab a Edward Said e depois
Actualmente, o conceito de orientalismo imperante, adoptado pela chamada crítica cultural, radica na concepção que dele nos apresentou Edward Said. Mas o termo orientalismo tem sido, e continua a ser, utilizado com diversos significados, e uma das preocupações primordiais deste trabalho consistiu em circunstanciar essa diversidade conceptual.

Parto de um autor incontornável, Raymond Schwab, e do seu livro de 1950, La renaissance orientale. Este historiador considerava que as descobertas levadas a cabo nos domínios dos orientalismos permitiram que «’humanisme partiel des classiques» se tornasse «l’humanisme intégral qui nous semble maintenant un produit de la nature.» (1)

Para Schwab, os efeitos orientalistas, de cunho cultural, sentidos na filosofia e na literatura, pouco tinham a ver com um certo tipo de exotismo livresco, do género que levou um dos irmãos Goncourt a escrever no seu diário: «En lisant le Voyage dans l’Inde de Soltykof, il me prend une telle envie de l’exotisme que je cours acheter un ananas [12 de Julho de 1865]!» (2)

Apesar de investigar principalmente os efeitos do orientalismo de cariz indiano, Raymond Schwab aborda também os primórdios da sinologia europeia institucional e a fundação da prestigiosa escola francesa. A informação sobre as duas primeiras gerações de sinólogos franceses, que o autor nos serve culturalmente contextualizada, é preciosa. O seu livro, um «romance of ideas» (3) como lhe chamou Said, transmite sabiamente o aspecto positivo da extraordinária aventura orientalista iniciada nos fins do século XVIII e constitui um repositório inestimável de dados detalhadamente circunstanciados.

Todo este manancial erudito foi um dos motivos inspiradores de Edward Said e de Orientalism (1978), o segundo autor sobre cuja obra me debruço, com referência a algumas das críticas que lhe têm sido feitas. Enquanto Schwab privilegia a Índia, o campo de investigação de Said é o Oriente “construído” pelo Ocidente, ou melhor, a depreciativa “representação” ocidental do Oriente e dos orientais, fundamentalmente do Médio Oriente e dos árabes.

De facto, a referência ao Extremo Oriente chinês é sempre pontual. Aliás, se o interesse de Said se tivesse reportado a essas paragens, certamente não teria afirmado que «no one is likely to imagine a field symmetrical to it called Occidentalism» (4) pois existia uma espécie de ocidentalismo na China da segunda metade do século XIX, que inicialmente teve a significativa designação de «barbarian affairs movement». (5)

Dado o seu desconhecimento geográfico em relação ao que excedesse os limites de influência do seu grande centro (China, país do meio, Zhong guo) nessa época, o Ocidente era para os chineses um conceito ainda mais indefinido… do que o Oriente para os ocidentais.

John MacKenzie é o terceiro autor cujo roteiro utilizo nesta minha viagem. Este professor de história imperial, no seu Orientalism. History, theory and the arts (1995), em que justamente recenseia as referidas críticas a Said, propõe um alargamento do conceito de orientalismo- que desde a publicação das teses de Said se tinha restringido e negativizado- de modo a contemplar o papel altamente positivo e renovador que o conhecimento dos diversos Orientes exerceu no campo cultural do Ocidente.

2-A imagem da China

Realço, neste capítulo, o processo de transformação de uma certa imagem positiva da China numa imagem depreciativa, processo que os livros de viagens reproduzem e que tem diversas causas teórico-práticas. Apesar de pouco conhecidos, também houve, no século XIX, livros portugueses de viagens à China, e não apenas o relato da viagem fantasiosa do Teodoro de O mandarim (1880) de Eça de Queirós. E apesar da “literatura pequinense” não ser levada a sério nas universidades portuguesas, também houve quem estudasse a língua e a cultura chinesas.

Com efeito, fala-se de escola sinológica francesa, orientalismos franceses e ingleses. E em Portugal? Subjacente ao nosso tão celebrado «mito do Oriente» (6), qual era o luso saber orientalista?

O orientalismo português, na sua vertente sinológica, esteve sempre ligado à presença portuguesa em Macau, e os estudos portugueses de sinologia de então são uma obra digna de ser lembrada. Nos seus primórdios, a sinologia dependeu institucionalmente da esfera religiosa, sendo depois abalada pelos ventos anti-religiosos que periodicamente sopraram da Metrópole. A sua vertente laica desenvolveu-se a partir do momento em que foram necessários intérpretes que interviessem no novo tipo de relacionamento com as autoridades chinesas.

Assim, no capítulo 2 são abordados não só os livros portugueses sobre a China e a cultura chinesa escritos no século XIX, como também os estudos sinológicos portugueses, nomeadamente através das referências que os viajantes fazem, nesses seus escritos, aos estudiosos da língua e cultura sínicas.

3-Orientalismo continental e uma voz do Oriente

No capítulo 3viajo até à Metrópole ao encontro dos mais representativos exemplos de orientalismos de cariz sinológico. Começo por elucidar aquilo que actualmente se entende por discurso orientalista, no sentido ‘saidiano’, através do discurso generalizante, etnocentrista e racista de alguns textos de Oliveira Martins.

Falo em seguida daquele que é considerado o primeiro sinólogo oficial em Portugal continental, João Feliciano Marques Pereira, e da sua actividade de inventariação e divulgação dos saberes resultantes do relacionamento português com o Extremo Oriente; actividade que se concretizou, nomeadamente, com a publicação, a partir de 1899, da revista Ta-ssi-yang-kuo. Arquivos e anais do Extremo Oriente português.

Este enérgico personagem – investigador, jornalista político e deputado por Macau – também pode ser considerado um exemplo do que Edward Said entendeu ser um dos aspectos fundamentais do orientalismo, na medida em que todo esse acumular de saber era motivado pelo propósito político de não deixar que fossem esquecidos os direitos portugueses em Macau, face aos poderes e saberes mais fortes das outras potências ocidentais que então disputavam o pingue território chinês.

Foi um digno herdeiro não só de seu pai, António F. Marques Pereira, um dos primeiros a debruçar-se sobre a história do relacionamento de Portugal com a China, como também, e antes dele, do visconde de Santarém. Também me refiro a este português que, no seu exílio em Paris, esteve em contacto com os orientalistas do seu tempo.

Contemporâneo de João F. Marques Pereira, e protagonizando um percurso inverso ao seu, encontramos Wenceslau de Morais, cuja voz tão especial se fazia também ouvir na imprensa. O seu discurso anticolonialista é uma inspiradora contrapartida ao hegemónico etnocentrismo dos teóricos da história universal e dos práticos pró-colonialistas.

Concluo o capítulo apresentando o fundador dos estudos orientais em Portugal continental, Guilherme de Vasconcelos Abreu, lente de Sânscrito no Curso Superior de Letras, e comento um trabalho seu, publicado em 1889, intitulado “O animismo entre os chineses, escrito num estilo que é, caracteristicamente, uma mistura de erudição e da mais pura sobranceria ariana.

4-Do X Congresso Internacional dos Orientalistas a Morais Palha e Pessanha

Neste capítulo são comentadas as contribuições portuguesas enviadas de Cantão ao “X Congresso Internacional dos Orientalistas” (agendado para Lisboa, em 1892, e que não se chegou a realizar) e a obra de A. Morais Palha, Esboço crítico sobre a civilização chinesa (1912), cujo prefácio de Camilo Pessanha é muito mais conhecido.
Cantão (e Macau), onde há mais tempo se fazia sentir a influência ocidental, tinha fama, desde há muito, de ser o local da China mais degradado e corrompido. Fazia parte, no dizer poético de Victor Segalen, da «écorce meurtrie» (7) da China.

Nos textos referidos é a descrição deste cenário degradado e decadente que prevalece. Camilo Pessanha dá-nos a provar, no prefácio à referida obra de Morais Palha, esta parte apodrecida do fruto da civilização chinesa.

5- Camilo Pessanha, orientalizado e “dilettanti da sinologia”

O capítulo 5 é dedicado a Camilo Pessanha. Nele é inquirida uma outra típica faceta da experiência ocidental no Oriente, directamente ligada à utilização de substâncias como o ópio e o haxixe. Este orientalismo dos “paraísos artificiais” é perspectivado de acordo com a teorização pré-simbolista de Baudelaire, teorização que anuncia a chamada revolução da linguagem poética e de que o nosso poeta é considerado o mais ilustre iniciador.

Neste capítulo também são abordados os interessantes e valiosos escritos de Pessanha sobre a poesia chinesa e indiciadas e analisadas as imagens poéticas de temática oriental da sua poesia, algumas evidentes, outras puras suposições.

6-O Cancioneiro chinês de António Feijó: a nossa mais bela jóia orientalista

O capítulo 6 é dedicado ao autor da mais bela jóia orientalista da poesia portuguesa: o Cancioneiro chinês (1890) de António Feijó. Apresenta-se uma breve biobibliografia deste poeta que se regia pelo princípio estético da máxima perfeição. Este facto e a componente pictórica das poesias do Cancioneiro chinês fazem com que esta obra seja considerada uma das mais representativas do nosso parnasianismo. Inquiro sobre as origens desta dúbia apelidação e transmito o que o próprio poeta pensava sobre os parnasianos franceses.

Neste capítulo, traço a história do Cancioneiro chinês através da correspondência do poeta com o seu amigo Luís de Magalhães. Apresento ainda a orientalista Judith Gautier, autora do pioneiro Le Livre de jade (1867), obra que divulgou na Europa a poesia chinesa e que inspirou numerosos poetas para além de António Feijó.

Depois deste resumo introdutório, gostaria de referir dois autores cujos escritos sobre o Extremo Oriente se revestem de uma importância já devidamente reconhecida, no panorama do orientalismo português, até por constituírem um testemunho precioso da minoria de intelectuais que não adoptaram apenas um discurso racista, eurocentrista, ‘científico’, em suma orientalista no sentido com que Said investiu este termo. Refiro-me a Eça de Queirós e Wenceslau de Morais, que invoco estrategicamente ao longo do meu texto.

O percurso que efectuei, como já referi, foi motivado pela necessidade de uma compreensão sistémica, tanto dos aspectos orientalistas das obras de Pessanha e de Feijó, como também das próprias teorizações sobre o orientalismo.

Gostaria ainda de acrescentar que sendo este trabalho uma investigação sobre a especificidade dos discursos orientalistas, assume-se também como uma espécie de pequena antologia dos mesmos, o que justifica ter optado por citar extensivamente em vez de parafrasear.

——————————-
Notas
1Raymond SCHWAB, La renaissance orientale, p. 13.

2 Edmond e Jules de GONCOURT, Journal, vol. I, p. 984.

3Edward SAID, «Raymond Schwab», pp. 248-267.

4-Idem, Orientalism, p. 50.

5-Com efeito, mais ou menos pela altura em que os fan-gueis ocidentais (os diabos estrangeiros) definitivamente impuseram a sua presença no Celeste Império, contra a vontade do regime imperial (com a primeira das chamadas guerras do ópio entre 1839-1842, e a farsa legal dos “tratados iníquos”), tinha surgido na China o chamado «barbarian affairs movement» (HU Sheng, From the opium war, p. 404), o primeiro nome deste “ocidentalismo” de que o célebre comissário Lin Zexu, o mandarim que o imperador Dao guang (1821-1852) mandou para Cantão em 1839 para controlar e impedir (em vão) o contrabando do ópio, foi o grande incentivador, dado o seu pioneiro interesse pelo estudo das coisas do Ocidente. Posteriormente, este movimento foi designado em inglês por «the Westernization movement» e os ‘ocidentalistas’ de lá, na sua fase mais tardia, chamavam-se «Westernization Clique» (cf. idem, ibidem).

6-Cf. Álvaro Manuel MACHADO, O mito do Oriente na literatura portuguesa.

7Victor SEGALEN, Essai sur l’exotisme, p. 52.

—————-

Voltar ao Índice detalhado